terça-feira, outubro 21, 2003

Greve do Ensino Superior

Os estudantes do ensino superior público estiveram hoje de greve às aulas. O protesto deve-se às novas regras do financiamento das Universidades e, muito especialmente, ao aumento substancial das propinas que os estudantes pagam para as frequentar.
Em concreto, criticam uma lei que dá autonomia às Universidades para fixar um valor de propinas que oscila entre cerca de €400,00 e €800,00. Actualmente, esse valor está indexado ao salário mí­nimo nacional, solução que foi adoptada após idêntico processo conturbado durante o consulado do Governo de Guterres.


Sobre este assunto, gostava de dizer 4 coisas:
1.- A "luta" dos estudantes é ridí­cula, deslocada no tempo e socialmente revoltante. Ridí­cula porque se tem vindo a transformar numa espécie de folclore de época, como ainda recentemente o Sr. Presidente da República afirmou. Deslocada no tempo, porque é um tema velho, gasto, que não causa a mí­nima perturbação na opinião pública. Socialmente revoltante, porque se trata da luta dos beneficiados da sociedade. Geralmente, aqueles que chegam à  Universidade são os jovens mais protegidos (pela familia e pela sociedade). Os outros, aqueles que não estiveram em greve hoje, são os que foram trabalhar aos 15 ou 16 anos ou aqueles que por motivos vários foram parar à  marginalidade. Além disso, os meninos que lutaram para não pagar €800,00 por ano para andar na Universidade são aqueles em quem o paí­s já investiu milhares de euros na respectiva educação, e que em princípio, têm melhores condições para enfrentar o seu futuro.
2.- Utilizando uma linguagem "Ferrea", eu diria que neste momento, os meninos do "não pagamos" consecutivo e das greves, conseguiram que o país se esteja "a cagar" para eles. Basta ver que o assunto foi o 5º ou 6º tema dos telejornais e não fixou mais de 2 ou 3 minutos de antena em qualquer dos canais.
3.- Os grevistas são fascistas. Como é possí­vel que esses senhores tenham utilizado a sua liberdade para fazer greve (cada um faz o que quer), mas não tenham permitido aos que pretendiam assistir às aulas o acesso à escola, fechando as respectivas portas com cadeados? É revoltante esta forma de exercí­cio da liberdade de contestação que cerceia direitos aos outros.
4.- Este tipo de postura mostra bem o nível em que esta gente está . Não se preocupam em discutir o facto de haver cursos absurdos nas Universidades, que só servem para criar desempregados, ou os conteúdos programáticos e a sua aderência à realidade empresarial. A isso, nem ligam, até porque obriga a pensar. Na verdade, para os meninos da "luta", é bem mais agradável fazer uma festa à volta dos cadeados ou chamar nomes à Ministra. Sempre podem utilizar um tipo de linguagem que dominam bem melhor: a do Grunho.
Dupond
Nota: Vale a pena ler um artigo escrito no Público do dia 21 de Setembro da autoria do Prof. Manuel Sobrinho Simões e do Prof. Lobo Antunes sobre este tema.