Marcelo, os livros e a blogosfera

Marcelo Rebelo de Sousa dá, hoje, uma entrevista ao ‘DNa’, o suplemento do Diário de Notícias, brilhantemente dirigido por esse lisboeta sem salvação que é Pedro Rolo Duarte.
Há variadíssimos pontos de interesse, mas uma minha lamentável coscuvilhice fez com que os olhos se desviassem para os comentários sobre Pacheco Pereira e as ‘bocas’ deste sobre a quantidade de livros que o entrevistado afirma ler. Desilusão. Quando se esperava uma resposta sobre-humana, sai uma sub-humana: o Professor confessa que os livros que diz ler, apenas os lê na diagonal: “li e gostei deve ser lido como ‘li na diagonal e gostei’”.
Daniel Pennac, em “Como um Romance” (ASA, 1993), estabelece os Direitos Inalienáveis do Leitor e, entre eles, estão: o de saltar páginas e o de não acabar um livro. Agora, o de ler na diagonal, não encontro. Aliás, para que é que se lê um livro na diagonal? Para se dizer que se leu ? Que se provou, mas não comeu?
Depois desta, estou à espera de ouvir Marcelo Rebelo de Sousa dizer qualquer coisa como “limpei o Metropolitan em duas horas” ou “percorri o Louvre em quatro horas”. E, se alguém perguntar como, já sabemos a resposta: “vi os quadros na diagonal…”. Habilidade de Marcelo ou argumentos de martelo?
Já quanto à sua performance horária – dois ou mais livros, por dia – o político-comentador compara-se, vantajosamente, a Pacheco Pereira: “como não ando a navegar na Internet toda a noite, isso permite-me ler um bocadinho mais do que propriamente quem anda a navegar na Internet”. Assim, à primeira vista, acaba de se criar mais um fenómeno português: como, durante o dia, Pacheco Pereira tem de estar no Parlamento Europeu e, de noite, não dorme porque está a surfar na Net, a conclusão é simples: Pacheco não dorme.
Finalmente, Marcelo não pensa criar um blog: "se a televisão já é um bocadinho instantânea - e o funcionar em instantâneo retira profundiade e distanciamento, o funcionar em blogue diário, temo bem que tenha a vantagem do intervencionismo em cima da hora, do tempo real, mas o tempo real, Às vezes, tem um custo enorme na profundidade da intervenção".
Ou seja, Marcelo também quer tempo para dormir.
Dupont

por Alcazar, Dupond, Dupont e Haddock

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