Em pouco menos de um mês, digeri três filmes de acção. Infelizmente, nenhum valeu o preço do bilhete.
Começando pelo que fui ver ontem à noite, “Era uma vez no México”, trata-se da terceira aparição de El Mariachi, depois do filme homónimo e de ‘Desperado’, sempre orquestrados por Robert Rodriguez. O elenco tem algumas pérolas, como Willem Dafoe, Johnny Depp e Selma Hayek, mas a presença desse péssimo actor que dá pelo nome de António Banderas estraga tudo. Completamente preso a personagens ‘latinas’ o actor malaguenho não consegue transmitir uma única emoção, sempre com aquela cara granítica e a voz sussurrada. Pior ‘latino’ só mesmo o Joaquim de Almeida. Ah! E se ainda tivéssemos dúvida sobre o carácter ‘pop’ desta opus de Rodriguez, ainda foram convocar Enrique Iglesias, que parece ter saído do teledisco em que contracena com Mickey Rourke... que também entra (acaso?)!
Quanto ao filme, é um delírio visual de tiros e fogo de artifício, onde são disparadas balas inteligentes que só acertam nos 'maus'. O argumento é patético, recorrendo a tudo o que é cliché ‘latin america’. A encenação dos tiroteios recorda Sam Peckinpah, a acção reproduz os comics de banda desenhada e o título evoca Sérgio Leone e Clint Eastwood, o que, dada a comparação, é descaramento...
Matrix é outra tragédia, esta em três actos. Uma ideia engenhosa deu um filme primordial fantástico, a que se seguiu uma continuação sofrível e um ‘closing’ lamentável. Os irmãos Wachowski não conseguiram resolver aquilo que, à primeira vista, nunca seria um problema: os efeitos especiais. Em vez de os remeter para o seu devido lugar – serem suporte da narrativa – deixaram-nos conquistar o ‘leading role’. Até ao nível da construção do argumento, as imensas referências religioso-filosóficas acabam por dar uma ideia de novo-riquismo cultural confrangedor.
Finalmente, o menos-mau do trio, ‘Kill Bill’. Quentin Tarantino, o menino rebelde da “nouvelle vague” hollywwodesca e amigo de Robert Rodriguez (até chegou a interpretar um personagem em ‘Desperado’) apresenta-nos o seu mergulho no mundo dos filmes de artes marciais. O realizador é uma verdadeira enciclopédia cinéfila e isso transparece nas suas obras, sempre recheadas de citações de obras marcantes do género que tenta homenagear. Veja-se o anterior, 'Jackie Brown', onde foi beber inspiração aos 'blackxploitation movies' dos anos 70. Violência não falta, como não falta a presença dessa fantástica actriz que é Uma Thurman, já imortalizada no celulóide por Tarantino em ‘Pulp Fiction’. O filme está dotado do mesmo tipo de humor, negríssimo, dos anteriores. A frase chave, desta vez, será, certamente, a apresentação de Bill: “
Well I'm from Tennessee Texas... My name is Buck and I'm here to fuck”.
Resolvi reunir estes três filmes num único post por uma razão. Quando apareceram as primeiras obras de Robert Rodriguez, dos Irmãos Wachowski e de Quentin Tarantino, os seus realizadores/autores foram rotulados e saudados como 'nova geração de cineastas'. Recordo o nome desses filmes primordiais: ‘El Mariachi’, ‘Bound’ e ‘Reservoir Dogs’. O que há aqui em comum é que foram todos realizados com custos reduzidíssimos e obtiveram boas receitas e melhores críticas. Outras características que os identificam relacionam-se com o facto de todos serem cinéfilos antes de serem cineastas, de gostarem de trabalhar com um grupo constante de actores e de evitarem publicidade. Mas o que funcionou ‘à primeira’, não voltou a acontecer. Porquê? Por um lado, porque todos tinham algo a provar. Por outro, não tinham dinheiro para gastar em takes supérfluos. Era a velha história de “a necessidade aguça o engenho”. A prova de que isso era verdade é que, agora, fazem sempre o mesmo filme. O que podia ser bom, parafraseando Hitchcock. No caso, é perigosamente mau.
Dupont