A última
opus de Anthony Minghella é daqueles filmes que foi construído com o objectivo visível de conquistar prémios. Apesar desse propósito discutível, tem algum mérito, nomeadamente no trabalho dos actores e do sentido da história que nos é contada.
O argumento é bastante linear: rapaz conhece rapariga; apaixonam-se; declaram-se no dia em que este parte para a guerra (da Secessão); ela fica à espera; ele volta quatro anos depois; fico por aqui para não ser ‘spoiler’ a quem ainda não viu o filme, até porque só faltam dez minutos dos 155 que a fita demora…
É claro que, pelo meio, há todo um rendilhado de pormenores que enriquece a obra, especialmente os relacionados com o sentido geral da história, intimamente ligado aos conceitos de amor e de destino.
O contacto físico das personagens é mínimo e só se conhecem (no sentido bíblico…) uma única vez, de que resultará uma filha. As dezenas de cartas que enviam um ao outro não chegam ao destinatário, mas ambos confessam que as “leram”. Será que o amor se mede pela duração ou pela intensidade?
Por outro lado, durante a Guerra e no acidentado “regresso a Ítaca” que o personagem masculino percorre durante a maior parte do filme, ele faz sempre uma pergunta: “porque é que ainda não fui morto?”. Ou seja, parece adivinhar que um destino especial lhe está reservado. Será que há, realmente, uma formatação da nossa vida, uma pré-programação?
Os actores principais carregam bem o tom épico que Minghella quis dar a "Cold Mountain", especialmente Nicole Kidman, que está bela como nunca. Jude Law, com o seu ar melancólico, foi uma escolha acertadíssima e, nas cenas de acção, especialmente quando expressa raiva, mostra uma frieza que, certamente, poderá confirmá-lo como o novo James - 007 - Bond.
Mas o realce vai para as interpretações secundárias. Desde logo, as irreconhecíveis Reneé Zelweeger (várias vezes premiada por esta representação) e Natalie Portman, no primeiro papel verdadeiramente adulto da sua carreira. Depois, há uma pequena aparição de Jack White, o cérebro por detrás dos White Stripes, uma das bandas mais interessantes do panorama rock norte-americano.
Temos batalhas épicas, cenários fantásticos, actores de primeira escolha, enfim, todos os ingredientes para uma receita de sucesso. Mas, infelizmente, a soma de partes de elevada qualidade nem sempre é certeza de um resultado excelente. “Cold Mountain” é, infelizmente, um caso desses. Na verdade, tudo sai lento e pesado e o argumento parece soluçar entre episódios sem grande relação. Não chegarei ao ponto de dizer que não vale a pena comprar bilhete para Cold Mountain. Diria, antes, "aproximar-se com cuidado"...
Dupont