No
Sunday Times, um belíssimo e extensíssimo artigo de Andrew Sullivan, “Europe’s Appeasers”, mostra surpresa e preocupação pelo resultado eleitoral espanhol. “
Perante um assassinato em massa, o eleitorado espanhol votou para dar à jihad o que eles reclamavam: a retirada das tropas espanholas do Iraque. O 11 de Março foi uma reprise do 11 de Setembro. Mas desta vez funcionou. Em vez de se levantarem em raiva contra os assassinos do novo movimento fascista do Mundo islâmico, como o fez os Estados Unidos, a Espanha fez o contrário: desistiu. Na esperança de evitar futura violência, o vitorioso Partido Socialista reiterou a sua decisão de abandonar o Iraque ao caos e à revolução islamita. É raro terroristas conseguiram uma vitória tão clara”. O problema agora é que “
a Al-Qaeda aprendeu uma coisa importante em Madrid: se resultou uma vez, porque não tentar de novo? Tony Blair é um alvo bem mais tentador do que José Maria Aznar”…
Evoluindo o seu raciocínio, o autor defende que os terroristas cometeram um erro ao menosprezarem a América, imaginando que a amedrontavam. A prova desse erro encontra-a em quatro factos: a perda do estado-amigo Afeganistão pela Al-Qaeda, a queda do aliado anti-americano Saddam Hussein, a regeneração da Líbia e, “
o pior do ponto de vista dessa organização”, a possibilidade de surgirem dois estados muçulmanos democráticos: o Iraque o Afeganistão.
Andrew Sullivan irrita-se como facto do The Guardian não conseguir chamar aos terroristas “
bad guys” e defender a realização de uma “
conferência internacional”, ou seja, um certo diálogo, para se obter a paz. “
O que temos aqui é um completo niilismo moral na presença de uma violência inqualificável”.
E deixa o alerta de que a grande vítima do terrorismo será sempre a Europa. Pela proximidade geográfica, pela diminuição demográfica e “invasão” de imigrantes e pela ilusão de que as ameaças que sobre ela pairam são culpa da América. Porque os verdadeiros objectivos destes terroristas são claros:
“expulsão dos infiéis de todas as terras islâmicas, subjugação do pluralismo político pelo teocracia fascista, a eliminação de todos os judeus independentemente de onde estejam, a escravidão para as mulheres, o assassínio dos homossexuais e a expansão do Islão para lá das fronteiras a que está confinado”.
Já aqui o dissemos: a negociação com os terroristas é uma coisa de doidos. Não é viável, não traz resultados positivos e, pior de tudo, viola a nossa tradição político-jurídica. Na verdade, ao contrário do que se passa em países com outras tradições jurídicas, nós não prevemos a possibilidade de dialogar com o criminoso, propondo acordos. Por exemplo, um assassino pode ser libertado por uma qualquer asneira processual, saindo em liberdade, mas jamais poderá negociar a extensão da usa pena ou até a desistência do procedimento criminal contra si instaurado. Parece impossível que um jurista como Mário Soares possa admitir algo que nem sequer tem suporte nas nossas raízes jurídicas.
É claro que, no meio de tudo isto, há ainda um inimigo suplementar: a comunicação social. Educada em escolas de jornalismo onde pontificam pensadores e filósofos de esquerda, a nossa classe jornalística exulta sempre que a esquerda vence. Basta recordar aquela jornalista da SIC que, na noite eleitoral que deu a segunda vitória a Guterres lhe perguntou: “Senhor Primeiro-Ministro, como viu esta nossa vitória?”. Ou então, na última ‘Visão’, que tinha como entre-título “O dia da vingança”, referindo-se ao Domingo das eleições, em Espanha…
Mas uma coisa é certa. A Espanha parece decidida a retirar as tropas. No
El Pais de ontem, José Luís Zapatero dá uma entrevista, longa e densa, com quatro páginas. E, claro, alinha com os socialistas europeus: “
a melhor resposta é a comunidade mundial da informação. Tem que haver muito mais cooperação entre os serviços de informação. E, sem dúvida alguma, devemos reduzir, ao máximo, os focos que produzem fanatismo e violência. Isto é dizer que solucionar o problema entre Israel e a Palestina é politicamente imprescindível dentro da estratégia geral de segurança no Mundo e perdemos demasiados anos sem conseguir resultados”. Aqui, bastam-me as palavras do colunista do “Sunday Times: “
Desculpe, senhor Zapatero, mas a libertação de milhões de pessoas de dois dos mais brutais estados-polícia da história jamais poderá ser considerada um desastre. Só revelar esse sentimento significa haver perdido todo e qualquer significado do que é moral”.
Mas o novo chefe do executivo espanhol é contra a guerra ao terrorismo: “
Ao terrorismo não se ganha, nem se derrota com guerras. A guerra é o último recurso e, em todo o caso, é apenas um instrumento de luta entre países que nunca pode ser um meio de luta eficaz para reduzir ou combater grupos fanáticos, radicais ou criminais”. E, tal como Andrew Sullivan já alertava, também Zapatero vai pelo diálogo: “
É necessário abrir um grande debate internacional cobre como se devem fazer as coisas para que nunca se volte a repetir uma intervenção militar como a do Iraque”.
Ou muito me engano, ou Espanha já tem o seu Guterres… Mas o mais significativo de tudo isto é o facto de se notar, claramente, que há nos socialistas um sentimento de capitulação. De que é preferível uma paz podre e a ideia de segurança em tempo curto, a um conflito aberto, caro e eventualmente sangrento, mas que, a longo prazo se traduziria numa segurança bem mais alicerçada.
Curiosamente, o dossier do Sunday Times abre com uma foto de Neville Chamberlain recortada com a silhueta da Península Ibérica. Nessa imagem, que é feita a partir daquela que mostramos, o primeiro-Ministro britânico exibe, orgulhoso, um pedaço de papel, que assegurava à Inglaterra que Hitler jamais entraria em conflito com ela. O tempo, como se sabe, encarregar-se-ia de revelar o engodo em que o governo britânico havia caído.
Nem de propósito, no dia anterior, nas páginas do
Expresso, João Pereira Coutinho alinhava pelo mesmo diapasão: “
Há 60 anos, num quadro de horror sem paralelo, a recusa de rendição salvou a Europa e o mundo. Sessenta anos depois, a Espanha trocou uma luta necessária por uma ilusão de segurança – uma mensagem de cobardia e capitulação que o terrorismo não esquecerá. Cuidado, Europa, este é o caminho para a servidão”. E o nosso irreverente cronista continua: “
O appeasement – a ideia de que é possível «negociar» com o ódio – nunca poupou o Ocidente. Foi emergindo em momentos críticos da História – e a Inglaterra, depois do episódio Chamberlain, voltou a conhecê-la em plena guerra, corria Maio de 1940. (…) Entre 24 e 28 de Maio o destino da Europa oscilou entre a «negociação» com Hitler (proposta de Halifax) e a vontade de o destruir (única opção para Churchill). A coragem de Winston prevaleceu”.
Recordo, aqui, algumas famosas palavras:
“
I have myself full confidence that if all do their duty, if nothing is neglected, and if the best arrangements are made, as they are being made, we shall prove ourselves once again able to defend our island home, to ride out the storm of war, and to outlive the menace of tyranny, if necessary for years if necessary alone.
(…)
We shall go on to the end;
We shall fight in France, we shall fight on the seas and oceans;
We shall fight with growing confidence and growing strength in the air;
We shall defend our island, whatever the cost may be;
We shall fight on the beaches, we shall fight on the landing grounds;
We shall fight in the fields, and in the streets;
We shall fight in the hills;
We shall never surrender,
(…)”
A História será justificação suficiente? Ou precisamos de bater com a cabeça contra a parede para saber se ela é dura?
Dupont