Carlos Lopes
Carlos Lopes foi um dos maiores atletas da história do desporto português. Natural de Vildemoinhos, aldeia próxima de Viseu, este fantástico atleta começou relativamente tarde a dedicar-se à prática do atletismo.
A sua primeira glória é conseguida em 1976 no Campeonato do Mundo de Corta Mato, prova que consegue vencer. Contrariando as instruções do seu treinador de sempre, Moniz Pereira, Carlos Lopes sente que pode ganhar a foge dos adversários. " Quando entro numa prova não tenho instruções. Os que estão de fora não podem mandar e dizer que a determinada altura temos de fazer isto ou aquilo. Quem manda é o atleta porque é ele que sabe como se sente. Ora, eu sentia-me bem, e depois, uma pessoa, quando vai à frente, as forças redobram. Eles foram ingénuos, pensaram que eu não aguentaria o andamento que impus a partir do 6º Km." Contra todas as expectativas, Carlos Lopres vence a traz o primeiro ouro para Portugal, deixando dois ingleses atrás de si.
Nesse ano disputavam-se os Jogos Olímpicos em Montreal, no Canadá. Seleccionado para a corrida de 10.000 metros, Carlos Lopes lançou-se à vitória com uma táctica arrojada: "Forçar o andamento até ao limite e das duas uma: ou rebenta ele ou rebentam os outros." A verdade é que rebentaram todos menos Lasse Viren, um Finlandês que venceu também os 5.000 metros, mas sobre quem ficaram para a história as suspeitas de uso de doping sanguíneo. Consta que o Finlandês recorria a injecções de sangue fresco, ministradas horas antes das corridas decisivas, o que lhe permitia aumentar o rendimento desportivo em cerca de 30% face à sua real valia. Apesar disso, Carlos Lopes escreve em Montreal a primeira página de glória do atletismo português.
Prosseguindo a sua carreira, Carlos Lopes consegue novos feitos heroicos em Mundiais de Cross, nomeadamente em 1977 com uma medalha de Prata, sendo depois vitima de algumas lesões que o impedem de se manter ao mais alto nível mundial. É por isso que fica ausente dos Jogos de Moscovo, atravessando um período negro até 1982. Para a sua recuperação é fundamental o Mestre Koboyashy, um especialista de acupunctura que o consegue curar e devolver à mais alta roda do atletismo mundial em 1982.
Nesse ano, Carlos Lopes consegue um feito impensável: bater o record da europa dos 10.000 metros com 27.24,39, superando o anterior máximo de Fernando Mamede, seu companheiro de equipa que não particiou na prova. Este feito conseguido em Oslo, nos Bislett Games, merece maior relevo dado que sucedeu frente a Henry Rono, detentor do Record do Mundo, que não aguentou o frenético ritmo de Lopes.
No ano seguinte, Lopes não para de surpreender o mundo. Consegue nova medalha de prata nos Mundiais de Cross e na segunda maratona da sua carreira bate o record europeu da distância, conseguindo o segundo lugar na Maratona de Roterdão com 2.08,30, a escassos 2 segundos de Rob de Castella, um australiano que o havia de acompanhar noutras provas.
1984 é o ano da vida de Carlos Lopes. No primeiro trimestre consegue sagrar-se, pela segunda vez na sua carreira, Campeão do Mundo de Cross, vencendo todos os adversários de forma convincente. Na conferência de imprensa final, Carlos Lopes, na altura com 37 anos, é arrebatador na forma como descreve o segredo da vitória: "Não é difícil vencê-los, porque treino-me tanto e tão duramente quanto eles. A única diferença é que sei esperar pelas ocasiões certas."
Depois desse início de ano em grande, Carlos Lopes dá nova demonstração de força, conseguindo um brilhante resultado nos 10.000 metros dos Bislett Games. Defrontando um Fernando Mamede de outro mundo (fez menos de 55 segndos na última das 25 voltas à pista), Carlos Lopes consegue bater o record do mundo de Honry Rono, que só não fica válido porque Mamede consegue ainda melhor. Os 27.13,81 de Mamede passam a figurar como Record Mundial dos 10.000 metros, mas os 27.17,48 de Lopes superam o anterior máximo de Henry Rono (27,22,5).
Com estes resultados em ano Olímpico, os olhos do mundo estavam sobre Lopes e Mamede. Se o segundo foi fonte de desilusão, Lopes foi fonte de glória para um país que nunca antes tinha sentido o sabor do ouro olímpico. Atropelado poucos dias antes da prova da maratona dos Jogos de Los Angeles, Carlos Lopes era, apesar disso, um favorito natural. No dia 12 de Agosto de 1982 foram muitos os portugueses que acordaram às 4.00 horas da madrugada para seguir aquela mítica corrida de 42.195 mt. Eu fui um deles. Vi o Carlos Lopes dirigir a corrida como quis. Um dos favoritos, o americano Alberto Salazar, que jogava em casa, perdeu o contacto com os lideres aos 19 km. Rob de Castella, o tal Australiano que mais respeito causava perdeu o contacto com os mais rápidos aos 34 Km. Os japoneses Seko e Takeshi deixaram de lutar pela vitória aos 36 Km. Nessa altura, Carlos Lopes fica na frente da corrida, só acompanhado pelo Irlandês Tracy e pelo Inglês Charles Spedding. 3 Km antes da linha de meta, Carlos Lopes, imperial, lança um ataque que lhe permite entrar no Estádio Olímpico de Los Angeles com mais de 200 mts de vantagem e vencer a prova com 2.09,21, marca que ainda hoje é Record Olímpico da distância.
O Ouro que lhe foi negado em Montreal chega finalmente ao seu peito. Confrontado pelos jornalistas, Carlos Lopes é desarmante na simplicidade com que explica a sua vitória: " Se foi dura a Maratona? Não, foram os 42 Km do costume. Nunca tive medo de ser derrotado, bater não me batem, ralhar não dói... Nervoso estava Moniz Pereira. Nunca o vi assim. Nervoso de mais. Estou feliz, o professor merecia esta medalha."
"Decidi não me preocupar antes dos 37 Km, a partir daí sabia que tinha de dar forte e feio, foi o que fiz."
Concentrando nesse ano de 1984 um conjunto de resultados impressionantes, Carlos Lopes chamou as atenções do mundo. Reagan chamou-o à Casa Branca para o conhecer. A imprensa espanhola consagrou-o como o Melhor Desportista do Mundo em 1984, prémio recebido das mãos de D. Juan Carlos. O Presidente da República da altura, Mário Soares, atribui-lhe a Grã-Cruz da Ordem do Infante, a mais importante comenda nacional.
Depois de todas essas glórias, Carlos Lopes não parou. No ano seguinte, 1985, consegue o seu terceiro título mundial de Cross em Lisboa, batendo o famoso Paul Kipkoech do Kénia. Pouco tempo depois obtém, aos 38 anos, o merecido record do mundo da maratona, vencendo a prova de Roterdão com uns impensáveis 2.07,11, marca ainda hoje dificil de alcançar pelos melhores do mundo.
Na história do desporto português, Carlos Lopes terá sempre um lugar único. Foi o primeiro homem da nossa história a conseguir uma medalha de ouro olímpica. Foi um enorme desportista. Foi, é e será uma referência para quem gosta de desporto.
Dupond

por Alcazar, Dupond, Dupont e Haddock

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