Não, não me refiro à divisão cimeira do futebol nacional, mas antes a uma banda desenhada chamada “A Liga dos Cavalheiros Extraordinários”, criada por Alan Moore, esse nome grande dos “comics”, juntamente com Kevin O’Neill. Há várias compilações, mas tudo se resume a duas séries: a primeira, de 1998, composta meia dúzia de volumes e, mais tarde, uma segunda, já em 2002.
O golpe de génio, aqui, foi “ressuscitar” alguns dos heróis da literatura clássica de aventura e mistério: Alain Quatermain, das ‘Minas de Salomão’, de Rider Hagaard, a tal com a famosa tradução portuguesa, de Eça; Mina, a vampira saída de ‘Drácula’, de Bram Stoker; Capitão Nemo, emergido das ‘20.000 Léguas Submarinas’, de Júlio Verne; a dupla dois-em-um Dr.Jeckyll e Mr.Hyde, de ‘O Médico e o Monstro’, de Robert Louis Stevenson; e, finalmente, Hawley Griffin, o ‘homem invisível’, da novela homónima de H.G.Welles.
Temos, portanto, um quinteto de protagonistas, cada um munido de uma característica diferente que, uma vez conjugadas, criam a tal Liga Extraordinária. A acção está temporalmente localizada em plena época vitoriana, com os nossos heróis a deslocarem-se um pouco por todo o Mundo, lutando contra um tal ‘M’. De Moriarty… É claro que, para a acção resultar, a tecnologia ao dispor de ‘bons’ e ‘maus’ é bastante avançada para a sua época, o que faz cair a série no domínio do subgénero ‘steampunk’... Mas isso são detalhes que não interessam para aqui…
O que realmente me fascinou, para lá do prazer de ler BD, foi o reencontro com uma série de personagens que não via há já bastantes anos, mais precisamente desde a adolescência. Foi o meu avô quem me ofereceu as “Minas de Salomão”, um livro que garantiu ir deliciar-me. Acertou em cheio, claro está, ele, que detestava BD... E foi dali que saltei para Verne, Salgari, Defoe, Stevenson e tantos outros, como aconteceu com muitos jovens da minha e de outras gerações.
No ano passado saiu a versão cinematográfica, com Allan Quatermain a aparecer com o corpo de Sean Connery. Parecia um ‘casting’ perfeito, pois o explorador mais não era do que uma espécie de James Bond de outros tempos… E, para aguçar o apetite, mais duas personagens haviam sido adicionadas: Tom Sawyer, saído da pena de Mark Twain, aqui como espião, e o improvável Dorian Gray, de Oscar Wilde, como 'imortal'. Mas, “como gato escaldado de água fria tem medo”, há muito aprendi que estas versões cinematográficas de séries de BD dão, quase sempre, barraca e da grossa. Não vi o filme na sala escura, mas vi-o, este fim-de-semana, no conforto da sala cá de casa. Ainda bem que assim aconteceu. A fita é mais um exercício barroco e bacoco de efeitos especiais, com actores sem alma e um argumentista que nem sequer conseguiu captar a alma das personagens desenhadas. Lamentável, em toda a linha.
Mas já a BD havia tido dificuldades em impor-se, mas não por motivos técnicos… A grande falha, na minha opinião, é que a juventude de hoje não tem presente as referências bibliográficas e muito menos capacidade para descortinar a riqueza dos comentários e citações histórico-culturais da série. Aliás, houve já quem se desse ao trabalho de organizar ‘anotações’ para que a obra ficasse inteligível aos olhos dos fans de BD, que se limitavam a admirar o ‘traço’ e o correr da história.
Mas este pormenor é, também, elucidativo do tempo em que vivemos, onde a ausência de referências é uma constante por parte de um público com acesso à cultura mas que tem imensa dificuldade em apreende-la, porque não a compreende. E tal não acontece, precisamente porque vivemos numa época onde se cultiva o imediatismo e o superficial sem tempo, pachorra ou instrução para esgravatar e ver o que está por baixo do óbvio. E, como se tal não bastasse, assistimos a uma cultura de arrogância perante a ignorância: quando alguém é confrontado com o seu próprio desconhecimento sobre algo, refugia-se na agressividade ou tenta insultar os outros de ‘intelectuais’. Bem melhor faria em parar, procurar eliminar essa lacuna e tornar-se um pouco melhor.
Por isso é que aqueles cavalheiros eram realmente extraordinários. Ao partilhar as suas aventuras, o seu saber e os seus medos, jovens de todo o Mundo cresciam não só por dentro, mas também melhoravam o seu relacionamento com o Mundo. E sonhavam, algo, hoje, em desususo. Não seria correcto falar de mim, mas vi isso acontecer com muitos outros.
Fica a pergunta: será que, hoje, ainda há espaço para uma tal Liga?
Dupont