quinta-feira, abril 22, 2004

Príncipes...

Duas novas entradas no leitor de CD: “Musicology”, de Prince, e “Greatest Palace Music”, de Bonnie "Prince" Billy.


O álbum do Prince marca o regresso do compositor de Minneapolis à ribalta, após um interregno de vários anos. Fez bem. Os seus últimos lançamentos eram de fraquíssima qualidade, ameaçando pôr em causa a carreira e o bom nome de um dos mais fantásticos criadores de melodias da música contemporânea.
O meu contacto com Prince ocorreu com “1999” e atingiu o topo logo a seguir, com “Purple Rain”. Mas, ao contrário do que se poderia pensar, a minha admiração pelo “midget genius” manteve sempre um nível altíssimo, pela excelência da produção que ele, com fantástica regularidade, fazia brotar de Paisley Park, o seu estúdio-atelier.
Admiração será pouco. Veneração será mais adequado… Nem preciso dizer que tratei de arranjar tudo quanto tivesse rotulado de Prince. Desde a discografia completa, aos vídeos e, mais tarde, aos DVDs, julgo que não me faltará grande coisa… As paixões são mesmo assim. “Bootlegs” ou ‘discos pirata’, tenho vários, incluindo, claro está, o mais famoso da história da música: “Black Álbum”. Estamos a falar de fins dos anos 80, uma altura onde a internet ainda nem sequer era conversa e arranjar estes discos dava um trabalhão e era “complicado”… Mesmo as edições oficiais, raras por este ou aquele pormenor, só se arranjavam com os contactos certos. Os meus, não tenho problema em dizê-lo, era a saudosa ‘Tubitek’, nessa época dourada pré-megastores… Tive a felicidade de o ver ao vivo, em Alvalade, num concerto razoável, que me deixou alguma insatisfação, talvez porque esperasse algo parecido com o que havia dado em Dortmund, na digressão “Lovesexy” e editado em vídeo, que me encarreguei de visionar até à exaustão. Da fita, claro…
Se “Musicology” é a aposta de Prince para reatar a sua carreira, o meu comentário só poderá ser um “nim”. Aquando da audição inicial, em particular das duas faixas iniciais, fiquei na dúvida se estava a ouvir Sua Majestade ou Pedro Abrunhosa… Mas, daí para a frente as coisas melhoram, com o regresso dos trepidantes ritmos a que Prince nos habituou, em “Life’O’The Party”. A sua vontade de regresso é grande e, na quinta faixa, sintomaticamente chamada “Call My Name”, di-lo com clareza: “Heard Ur voice this morning/Calling out my name/ It had been so long since I heard it/ That it didn’t sound quite the same”. Daí para a frente, as composições alternam entre muita sonoridade “clássica” na obra de Prince e alguma coisa nova. E, claro, como é habitual, o álbum é “produced, arranged, composed and per4med by Prince”…
Poderão dizer que “é mais do mesmo” e, em parte, isso até é correcto. Mas, quando o “mesmo” é bom, que mais se poderá desejar?


Por coincidências que nos deixam a pensar se serão meros jogos do acaso ou alguém mais alto a divertir-se com a nossa incredulidade, no dia em que comprei “Musicology” também adquiri “Greatest Palace Music”, de Bonnie “Prince” Billy”. O registo, aqui, é completamente diferente. Da soul/funk/rock passamos para o mundo acústico e melancólico do folk/country alternativo.
Will Oldham, seu verdadeiro nome, é um artista que evoca uma América de espaços, pessoas e locais que, provavelmente, só existirão na sua sensível imaginação. Com um look anacrónico, a lembrar Walt Whitman (uma das suas inspirações) ou um soldado da Guerra da Secessão, este Prince é do melhor que a música actual pode oferecer.
Este álbum encerra músicas geniais, ou não fosse um “best of” disfarçado – com uma curiosa “confusão” entre canções dos seus dois “nomes de guerra”… Não está tudo, certamente, mas está muita coisa importante. E, mais significativo, está muita coisa fantástica. Quem não conhecer o universo de Will Oldham/Bonnie Prince Billy tem aqui uma excelente porta de entrada. Aconselho o clássico “Ohio River Boat Song”, para aperitivo, antes dos pratos principais…
Dupont