America not so blue... - Grant Wood e Norman Rockwell
Depois de ter escrito sobre Edward Hopper, no post anteiror, pensei que seria interessante fazer o contraponto com outros dois pintores: Grant Wood e Norman Rockwell.

Grant Wood está ligado à América profunda, a que o viu nascer. A sua temática é rural, mas mostrada através de uma opção estético-artística que vai buscar claras influências aos clássicos, especialmente aos grandes mestres flamengos, fruto de uma viagem pela Europa. Nos seus quadros, podemos ver enormes paisagens de campos de cultivo ou smalltowns rurais e antiquadas, além de retratos de gente ligada à agricultura. Quem já viu o encantador "Uma História Simples", de David Lynch, saberá do que estou a falar... Por vezes, parece que Wood queria preservar a identidade rural perante a inevitável invasão mecânica; noutras, dava a impressão de acreditar que a ponte entre essas dois mundos era, ainda, possível. Um dos seus quadros mais famosos, “Stone City, Iowa”, reproduz esta ideia na perfeição. Mas, o mais famoso, sem qualquer dúvida, é “American Gothic”, um quadro mil vezes glosado… Aí, um casal de agricultores personifica a “pureza” das gentes, a rectidão do seu estilo de vida e dos seus valores. Um apelo às origens como local onde se poderá encontrar a felicidade na vida. Aliás, se bem repararmos, os personagens quase fazem lembrar os “pioneers” que desembarcaram do Mayflower, em Plymouth Rock, ou os amish, que renegam todo o tipo de "civilização"...

Norman Rockwell é um caso diferente. Não haverá ninguém que não tenha visto algo saído da pena deste ilustrador, mais do que pintor... O tema é, quase sempre, a vida do dia-a-dia, mas com uma pitada de humor: miúdos a brincar, uma menina que leva a boneca ao médico, um camião parado numa rua estreita por causa de um cão, um candidato derrotado, escuteiros, sapateiros, enfim, o “ordinary american” está profusamente retratado na prolífica obra de Norman Rockwell. Boa parte foi criada com um único propósito: ilustrar a capa do Saturday Evening Post, o que aconteceu durante quase meio século. As suas imagens são de um detalhe imenso, com uma cuidadosa escolha de cores e de situações. Os americanos passaram a ver-se retratados na obra de Rockwell, talvez por se identificarem, ou quererem identificar-se, com as cenas retratadas. Como ele próprio disse: “Eu mostrei a América que conhecia e dei a conhecê-la a outros que, porventura, ainda não tinham reparado”. É claro que os motivos são, quase sempre, idílicos e, muitas das situações, implausíveis. Mas isso apenas contribuiu para que a América e o Mundo construísse uma ideia de “Terra Prometida”, que ainda persiste…
Mais do que a arte em si, o que neste trio de artistas está em jogo é o facto de as suas representações da América serem iconográficas, já que representam um lugar como o imaginamos e não como ele realmente é, ou foi. E, recordemos, que o apogeu destes três pintores ocorreu na primeira metade do século XX, veremos o quão intemporal a sua obra é e quão seminal são as suas representações. Em Wood e Rockwell, a América já não tem a solidão e o silêncio dos quadros de Hopper, mas antes uma mensagem de ligação profunda entre a terra e o homem – a terra que retribui a quem trabalha e o calor humano que só gente cristã e boa consegue dar. No fundo, a “land of the free, home of the brave…”.
Dupont

por Alcazar, Dupond, Dupont e Haddock

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