American Blues – Edward Hopper
Os jornais anunciam a abertura da exposição de Edward Hopper na Tate Modern. É uma daquela exposições pela qual vale a pena perder a cabeça, sair de casa e fazer um raid a Londres…
Hopper é o pintor da América que já não sonha porque acreditou nesse sonho e ele não se concretizou. Os seus quadros mostram homens e mulheres solitários, quais “vencidos da vida”. Parece terem vivido a juventude e esquecido que a vida continua. “Oh yeah life goes on/Long after the thrill of livin is gone”, já cantava John Mellencamp…
E, mesmo quando retrata um casal, ou um par de amigos, a sua disposição pictórica apenas acentua o silêncio. Nas suas telas vemos casas sozinhas que se erguem contra o horizonte. As suas pinturas exibem cantos tristes das cidades, onde a luz do sucesso não parece ter chegado…O silêncio é o som que mais nos parece ouvir quando contemplamos os seus quadros – na interpretação do observador, mas, principalmente, na mudez das próprias personagens. No fundo, o lado negro do american dream.
Mas, em Hopper, há esperança. A maioria das personagens é retratada junto a portas ou janelas, sinais óbvios de que há escapatória para aquela prisão. Mas, nas expressões dos retratados, parece não haver vontade de mudar. A vida terá passado e eles conformam-se. Esta tensão entre o ser e o dever ser é acentuada pela magistral escolha das cores, onde se regista um jogo entre zonas de luz e de sombra. Afinal, a eterna e omnipresente dualidade existencial…

Veja-se “Nighthawks”, porventura uma das suas obras mais conhecidas. O tema é um cofee-bar duma qualquer esquina de uma qualquer cidade. O negrume da noite é cortado pela luz que emana do café-farol. Ali dentro, quatro pessoas procuram aconchego. Um empregado conformado, dois homens de negro e com chapéu, sendo que um deles procurar flirtar com uma mulher, que monstra indícios claros de disponibilidade. Ou seja, uma prostituta, daquelas que mais do que dinheiro, busca eternamente aquele alguém que lhe faça companhia. Dentro e fora. Luz e sombra. Homem e casal. Homem e mulher. A própria concepção dos espaços, em que a zona de sombra parece ser penetrada pela de luz, acentua toda a homogeneidade da obra.

A esta ideia de solidão e abandono não é estranha a integração temporal de boa parte dos trabalhos de Hopper, que os elaborou em plena Depressão. O cinema não lhe ficaria indiferente. Cineastas, como John Ford, darão eco ao sentimento nacional desses tempos. Mas, mais do que o tema da famosa crise económica dos anos 30, a mais genuína ideia hopperiana de solidão foi apreendida por Hitchcock, que se inspirou no quadro “House by the railroad” para a casa de Norman Bates, em Psico. Como todos sabemos, Bates é o solitário administrador do Bates Motel, um psicopática que não aceitou a morte da mãe e que através do desdobramento da sua personalidade conseguia fazer diálogos…consigo próprio.
No início de carreira, Edward Hopper começou por investir em algo próximo do impressionismo. Mas, com o evoluir da sua temática, tornou-se realista e, por vezes, chega a aproximar-se do surrealismo hiper-realista, como acontece nos quadros em que janelas quase fantásticas desafiam as personagens retratadas. Linhas rectas e cores frias, assentam como uma luva à melancolia que perpassa toda a sua obra.
Talvez seja este travo acre, que também encontro noutro grande intérprete da América, Bruce Springsteen, que mais me seduz em Edward Hopper. Há, na sua obra, aquele sentir muito português, do drama, da fatalidade…
A amargura da existência.
Dupont

por Alcazar, Dupond, Dupont e Haddock

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