Má Educação

Ignacio/Angel, um jovem actor, à procura de emprego, resolve visitar um antigo colega do colégio, agora realizador de cinema. Durante a visita, deixa-lhe um conto que havia escrito, “A Visita”, onde relata a experiência por ambos vivida naquela escola. Enrique, o realizador, atravessa uma fase de bloqueio criativo, pelo que rapidamente mergulha na história que lhe havia sido entregue.
Assim começa “Má Educação”, o último de Pedro Almodôvar a chegar às salas de cinema. Semi-autobiográfico, o 15º filme do mais famoso realizador espanhol cruza uma série de temas e de sentimentos, não sendo fácil narrar o argumento sem correr o risco de deixar algo importante de fora. O tal conto é-nos narrado no que parece ser um flashback, mas que acaba por ser o filme realizado por Enrique com base no conto de Ignacio. E, nesse filme-dentro-do-filme, assistimos à vingança engendrada por Ignacio para fazer o Pe. Manolo pagar pelos seus pecados. E essas desvirtudes foram os continuados abusos sexuais perpetrados, por esse cura, contra um imberbe Ignacio e que começaram como tentativa desesperada deste de comprar a não expulsão do seu colega e grande amor, Enrique, o agora realizador. No conto, Ignacio é um travesti, enquanto na vida real é um actor desempregado. Mas, querendo desesperadamente um determinado papel no filme, Ignacio acaba por ceder sexualmente a Enrique que vem a descobrir que, afinal, Ignacio não é Ignacio, mas Juan, o seu irmão. O verdadeiro Ignacio morrera, ganhando a vida com travesti e prostituindo-se. E mais não conto mais, senão lá se vai o mistério...
Mas o filme é mais, muito mais do que isto.
O amor puro e sincero entre os dois miúdos acaba por ser a pedra de toque de toda a acção. A sua corrupção desencadeia uma série de tragédias que parece não terem fim, nem redenção. E digo redenção porque ao tão cristão sentimento de “culpa” está espalhado em todo o filme. Faz-se o “mal”, mas sabe-se qual é o “bem”. A confusão nasce, precisamente, da má educação que é inserida, entre os miúdos, pelo padre. Então era suposto, ou não, ele ser homem de bem e não provocar mal às crianças? O peso da educação cristã e o constrangimento que causa é determinante. A certo ponto, os miúdos conversam e Ignacio diz ter medo. Enrique, mais maduro, diz que não tem medo. Porquê? “Porque já não acredito em Deus”, responde.

Este quebrar de amarras, este assumir-se como realmente se é, o “coming out of the closet”, encaixa como uma luva na exclusiva temática homossexual em que todo o filme se insere (cenas sugeridas de sexo oral, anal e de masturbação mútua, mais o facto de não haver uma única actriz…), universo em que Almodovar se sente “como peixe na água”.
Neste sentido, “Má educação” é um duplo regresso ao passado. Por um lado, a vertente autobiográfica mas, por outro, há um retorno à temática e à estética tão queridas ao realizador: o ambiente maricón da movida madrilena e o gosto pelo kitsch. Se bem recordarmos, os seus três últimos filmes, ‘Carne Trémula’, ‘Tudo sobre Minha Mãe’ e ‘Fala com Ela’ eram melodramas puros, na onda do cinema americano, com histórias complexas, heterossexuais e passadas entre cidadãos comuns de classe média, apenas com um ou outro fugaz piscar de olhos a esse seu universo, como no final de ‘Tudo sobre minha mãe’. A complexidade das personagens mantém-se, a história é igualmente complexa, como o são as relações que se vão urdindo entre as personagens.
No entanto, há que ressalvar que não houve qualquer tentativa de retratar a Igreja como fonte de pecado e a homossexualidade como um ghetto de coitadinhos. Nada disso. Aqui fala-se de pessoas, com os seus erros, com as suas virtudes, de uma forma desapaixonada em relação aos estereótipos sociais, mas com enorme preocupação com a verdade que existe dentro de cada um de nós. Verdade essa que, umas vezes é expressa, mas, noutros casos, como o de Ignacio/Juan, é apenas aparente, como no final se confirmará...
A mestria de Pedro Almodovar nota-se, principalmente, no pulso com que gere a história, como nos vai fornecendo, aqui e ali, peças de um enorme puzzle, que só nos momentos finais fica completo. Uma técnica já brilhantemente usada em filmes como “Memento”, de Christopher Nolan, e “21 grams”, de Alejandro González Iñárritu. Os actores estão soberbos, especialmente o mexicano Gael García Bernal, que interpreta três personagens distintos, num trabalho igualmente magistral. Aliás, num registo estritamente pessoal, não deixo de anotar a curiosidade de o ver, aqui, num triplo papel homossexual, quando o recordo, essencialmente, pela sua participação em “Y tu mama tambien”, de Alfonso Cuarón, o filme mais erótico que vi nos últimos anos…
“Má educação” é, obviamente, um belo filme, como o são boa parte das obras de Almodovar. Mas, em relação à fasquia de excelência colocada com os seus dois últimos filmes, este representa um ligeiro passo atrás. O que significa que ainda é melhor do que 90% do que se pode ver nas nossas salas de cinema…
Dupont

por Alcazar, Dupond, Dupont e Haddock

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