domingo, maio 23, 2004

Michael Moore


Gosto de Michael Moore. Mas gosto dele na mesma perspectiva em que gosto de ler "O Barnabé" - para me rir da Verdade com que esta gente quer tornar o Mundo mais feliz. É uma pena ninguém acreditar neles, mas o seu desmedido ego nem sequer lhes deixa pensar nisso...
Desde o primeiro filme-documentário, "Roger & Me", que sigo a carreira de Michael Moore. Como é óbvio, já aí não concordava nada com a maior parte das coisas que ele tentava injectar nos espectadores, mas deliciei-me com a sua obsessão e com a sua forma "totalitária" de reproduzir a verdade, a 'sua' verdade. Moore não mudou nada.
Começou por denunciar a General Motors, nesse filme inicial de 1989, avançou para umas comédias mainstream, voltou a atacar as grandes empresas em "The Big One" e em várias séries televisivas, para, há dois anos, atingir o jackpot com "Bowling for Columbine". Nesse filme-documentário, Moore expunha as contradições da América face à profusão de armas na sociedade e a violência própria do americano. Particularmente cruel foi o que fez com Charleton Heston, em que o confronta com a morte, a tiro, de uma adolescente, após o próprio Heston ter defendido a posse livre de armas no local onde ela haveria de ser assassinada. No plano final, vê-se um Heston velho, "entalado" com a pergunta de Moore, a afastar-se da câmara, comprometido e sem saber o que fazer. Venceu o Óscar por esse filme e, agora, a Palma de Ouro de Cannes, com "Fahrenheit 9-11", sobre George Bush.
É claro que, em Michael Moore, tudo é obsessivo e não há lugar a contra-argumentação. Era só o que faltava. Moore é daqueles que sabe perfeitamente que é dono da verdade. Por vezes, faz lembrar Oliver Stone, na fase 'JFK'... E é só nesta perspectiva que vale a pena olhar para o trabalho de Moore, sem nunca cair na tentação de o aplaudir verdadeiramente, porque no fundo, este democrata é um verdadeiro ditador.
Numa altura em que o Mundo inteiro parece estar contra a América e George W. Bush, nada melhor do que premiar um dos seus ódios de estimação. E foi precisamente isso que Cannes fez: atribuiu um prémio político, em vez do competente prémio artístico.
Dupont