“The right connection”
Ontem, a meio da tarde, recebi um telefonema da minha mulher. Andara indisposta todo o fim-de-semana, sentira-se mal e desmaiara. Em face disto, resolvera ir, não ao “seu” Centro de Saúde, mas a um outro, onde trabalha F., médica, sua comadre e amiga. Disse para não me preocupar e que fosse buscar as crianças. Escusado será dizer que saí imediatamente do trabalho, meti-me no carro, telefonei ao meu sogro para que fosse ele ao infantário. Dirigi-me, o mais rapidamente possível, para junto dela. Quando estou a tentar estacionar o carro, recebo uma chamada. Uma voz feminina intitula-se “Drª…” e pergunta-me:
- É o marido de ….
- Sou. Aconteceu alguma coisa?
- A sua esposa está aqui, com um problema cardíaco. Não temos possibilidade de fazer aqui uma série de exames, pelo que vai ser transferida para o Hospital … Já chamamos a ambulância. Mas não se preocupe que não é nada de muito grave. – procurou descansar-me a médica.
- …
- Estou?..
- …
- Esta lá? Está a ouvir?
- Ahnmmm. Estou, estou… Mas o que é que quer dizer com “não é de nada de muito grave"?
- Não se preocupe e vá para o hospital.
Inversão de marcha e lá arranco para o hospital. É perto. Nem cinco minutos de viagem. Aquele “muito” ecoa-me dentro da cabeça. Estaciono no exterior e dirijo-me à ‘Urgência’. Quando estou quase a chegar, uma ambulância pára. No interior está R.,a minha mulher, com ar de quem não se aguenta em pé. Um dos bombeiros aconselha calma e vai buscar uma cadeira de rodas. Amparada, R. consegue sentar-se nela. Entramos e dão-nos indicações para nos dirigirmos a ‘cardiologia’. Assim fizemos.
A porta estava aberta. Uma paciente e três médicos. Dois deles conversam. Aguardamos. A mais velha sai com a paciente e, quando volta, sozinha, dispara para R., num tom inquisitório:
- O que é que você está aqui a fazer?
- Bem, estava no escritório quando me senti desfalecer, pelo que…
- O que é que uma pessoa da sua idade está a fazer numa cadeira de rodas? Levante-se e vá-se sentar numa cadeira! – quase ordenou.
- Mas estão todas ocupadas, além de que … - tentou explicar R.
- Pois estão. Então fique aí. Estava a dizer… - disse a médica, procurando reatar a conversa.
- Que me senti mal, desmaiei, senti tonturas e..-
- Tonturas? Hoje mandam as tonturas todas para cardiologia!… Espere aí que já a atendemos – atirou, virando as costas.
A médica voltou para o interior do gabinete de cardiologia e continuou a conversa com os dois colegas. À nossa volta, filas de idosos aguardavam a sua vez, para as mais variadas especialidades. Uma atmosfera tensa pairava em toda aquela zona da ‘Urgência’, aqui e ali entrecortada por gemidos e um ou outro berro de um paciente mais exaltado. Os enfermeiros e demais pessoal entretinham-se, num vaivém constante, a entrar e a sair das diversas salas, com a ocasional resmungadela para um colega que não fazia “o que lhe competia”. O tempo ia passando…
“Burro velho já sabe o caminho”, pensei. Afastei-me dez passos, saquei do telemóvel e liguei para C., amigo de farras académicas e, talvez por isso, cardiologista... O seu serviço é precisamente naquele hospital mas, infelizmente, não se encontrava lá.
- Não te preocupes que eu ligo já para aí – informou-me.
Desligo o telemóvel e regresso para junto de R. Uma simples troca de olhares e ela percebeu, imediatamente, o que eu acabara de fazer. Lá dentro, toca o telefone. Meio minuto de conversa. A mesma médica regressa e num tom amigável diz:
- É a Drª R…?
- Sou – confirma a minha mulher.
- E o sr. deve ser o...
- Sou…Sou… - murmuro, como se tivesse visto aquele filme várias vezes e já adivinhasse o fim daquela história.
- Estive a falar com o Dr. C., e ele deu-me as melhores referências de vocês. Podem estar descansados que estão em óptimas mãos. Faz favor de entrar – indicou a médica, com um largo sorriso. R . entrou.
Respirei fundo. Preparava-me para me sentar quando a transfigurada senhora regressa e me diz:
- Se quiser entrar… Não é costume, mas como não está mais ninguém...
Dupont

por Alcazar, Dupond, Dupont e Haddock

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