segunda-feira, junho 21, 2004

In memoriam - Ricardo Marques


A minha vida cruzou-se com a de Ricardo Marques menos vezes do que as que desejaria. Diferenças no tempo que começou a correr com uma diferença de seis anos entre nós, e no espaço, distante cinquenta quilómetros, fizeram com que apenas nos encontrássemos, algumas vezes, em casa de amigos comuns, nas antigas terras da Maia.
Das primeiras vezes que falamos, senti-me amedrontado. Acabava de entrar na adolescência e o Ricardo preparava-se para dela sair… Uma postura serena, com aquela auto-confiança, intraduzível por palavras, de quem tem a certeza do chão que pisa e dos passos que quer dar. Uns olhos expressivos, sempre perscrutando o mundo à sua volta, corria-lhe nas veias sangue celta, que ele homenageava na música e na sua paixão pelo Minho e pela Galiza. Dotado de uma sensibilidade apurada, herança directa da Conceição que lhe deu vida, foi ainda pintor e poeta.
Ricardo procurava o melhor da vida, para si e para os outros. Licenciou-se em medicina, especializou-se em ginecologia/obstetrícia e porque entendia o Mundo como um enorme pátio, sem barreiras e obstáculos, achou que o seu lugar também era junto dos Médicos Sem Fronteiras. Ele, um exemplo de integridade, sempre defendera que a maior das qualidades humanas era a solidariedade. E, ao contrário de muitos outros que nada mais fazem do que falar, o Ricardo provava-o com actos, exercendo no Sudão, na Guiné e na Somália. Em Abril de 1997 partiria para mais uma missão humanitária, desta vez em Baidoa, novamente na Somália, a duas centenas de quilómetros da capital, Mogadíscio. No dia 20 de Junho, já com a missão terminada e as malas feitas, com o seu substituto pronto para entrar, o Ricardo ainda se encontrava ao serviço, numa unidade local, quando esta é invadida por guerrilheiros. Todo o pessoal foge, menos ele, que tenta explicar, ao grupo, o óbvio: que se tratava de um hospital e estavam ali pessoas a necessitar de cuidados médicos. Um guerrilheiro não o quis ouvir e abateu-o a tiro.
Ricardo Marques tinha 35 anos e a sua vida parou ali.
Mas a prova de que ainda está vivo é que estou, aqui, a recordá-lo e o amigo besugo também. Um homem só morre verdadeiramente quando desaparece a última pessoa que dele se lembrava. E o Ricardo viverá, ainda, por muitos mais anos.
A sua morte foi profundamente sentida. Para além da família, também amigos, colegas e até autoridades nacionais e estrangeiras, a começar no Presidente da República, lhe prestaram homenagem. A Câmara de Guimarães, que o viu nascer para Portugal e para o Mundo, imortalizou-o na toponímia local, como exemplo para a juventude. A de Viana do Castelo considerou-o, a título póstumo, cidadão de mérito. Mas a maior prova de que a sua passagem por este Mundo não foi em vão, reside no facto de dezenas e dezenas de amigos terem unido esforços e lançado, até agora, quatro livros que compilam muito do que o Ricardo deixou: Testemunhos (I a IV), em edição de autor. Foi daí que retirei:

EM BUSCA DO SUPREMO

Cresce uma árvore
Sobre os meus despojos
Abafa-me um grito
Entre os meus ossos

Sou apenas
HÚMUS

Mas já fui vida
Esperança aguerrida
Possuí belas mulheres
E descobri a minha eclusiva consciência
Vivi o mais que podia
Tive todas as profissões
Conheci a coragem e a cobardia
Dormi com um universo de ilusões
Aprendi muita coisa
Sabia dizer palavrões em todas as línguas
Conquistei poemas e cidades
Agora sou apenas
HÚMUS
(…)

ADITAMENTO: também no Betanices
Dupont