Há uns dias, desloquei-me ao centro de inspecções de veículos, ali, na Varziela. Pensava que estava aberto à hora do almoço, mas enganei-me. Sem saber o que fazer durante a longa meia hora que se perfilava à minha frente, deambulei pelos armazéns circundantes, quase todos com nome, mercadoria e pessoal chinês. Não fazia ideia da dimensão do fenómeno, o que pesou na quantificação do meu espanto que, mesmo assim, ainda foi enorme...
Vi malas para computador a 7 euros, malas de viagem gigantescas, a 30 euros, roupa de homem, senhora e criança a partir de 2 euros, sapatilhas a partir de 5 euros e sei lá bem o que mais... Muitos dos produtos são cópia descarada de grandes marcas, como a Louis Vuitton, a Dior, a Samsonite, a Reebok, a Levi Strauss entre muitas outras...
Enquanto entrava e saía das lojas/armazém, muitas das vezes assediado pelos vendedores para que conhecesse os seus produtos, dei por mim a recordar um documentário que passou no canal Odisseia, sobre a contrafacção na China. O programa tinha sido concebido do ponto de vista da Cartier, especialmente no que diz respeito a marroquinaria, mas não só. O representante da marca francesa no Oriente ia fazendo uma série de visitas a centros comerciais e lojas, onde ia mostrando os tais produtos com marca e design falsificados. É claro que ele só se podia queixar dos “seus” mas, conhecedor do meio, explicava à reportagem o que se passava, também, com outras marcas. A ‘cereja em cima do bolo’ aconteceu quando entrou num shopping center gigantesco, semelhante a algo nascido de um cruzamento entre o antigo Brasília e o NorteShopping, onde todas as lojas, mas mesmo todas, espalhadas por vários andares, ofereciam produtos contrafeitos. O ‘Homem-da-Cartier’ mostrou, estupefacto, um relógio cujo modelo havia sido lançado na Suiça há somente 15 dias, ficou siderado perante toda a gama de produtos da.. Cartier, exibiu sapatilhas e roupa de todas as marcas de topo, enfim, uma verdadeira caverna de Ali-Babá de falsificações. Havia, inclusive, vários graus de falsificação. Por exemplo, o relógio atrás mencionado, era vendido a 10, 30 e 90 dólares, consoante a sua perfeição... Mais à frente, a reportagem iria acompanhar uma acção contra uma fábrica de cintos contrafeitos. Uma miséria... Era uma família pobre, que vivia em condições deploráveis, sem outra fonte de sustento que não fosse os cintos, feitos de maneira artesanal, numa maquineta inqualificável... Isto para concluir que a erradicação deste tipo de indústria e mercado levaria ao desemprego centenas de milhões de pessoas...
Mas ainda era levantada uma outra questão, essa bem mais grave: a falsificação de produtos alimentares. Recordo a notícia, recente, da morte de dezenas de crianças em virtude de terem ingerido leite adulterado. No programa a que me refiro, o exemplo era o do chá, em que o produto falsificado não tinha o mínimo de qualidade, pois, além de folhas, tinha ramos e pequenas pedrinhas... A embalagem, essa, era semelhante. Curiosamente, aqui, o argumento ‘preço’ não era usado na forma habitual, com a venda a 1/8 do preço do original. No chá, a redução era de apenas 10%. Porquê? Porque a ideia é: o consumidor, perante produtos que julga equivalentes, levará o mais barato. Ou seja, o comprador não pensa que está a comprar um produto falso...
Um armazém semelhante, mas mais completo, está em Madrid e chama-se “China Center”. Além dos produtos “tradicionais”, ainda temos uma vasta oferta de electrónica e, pior, de CDs e DVDs com filmes e programas informáticos. Em Espanha, vendem-se 100.000 CDs e 30.000 DVDs piratas, por dia... Quem já passeou pelas Puertas del Sol, em Madrid, na Plaza de Catalunya, em Barcelona ou nas marginais da Costa do Sol, sabe bem como é verdade...
Do ponto de vista legal, é muito complicado combater a contrafacção, pela mesma razão que é difícil combater o tráfego de droga quando só se apanham os dealers de rua... As alfândegas europeias não têm pessoal que chegue. Em média, por cada mil contentores que cheguem a um porto europeu, apenas um é verificado; se vierem da Colômbia, ou de outro país suspeito, o número baixa para um por quinhentos, o que é claramente insuficiente. Mas, curiosamente, os falsários vão encontrar apoio moral junto dos... cidadãos. Na verdade, o comprador comum não vê censurabilidade na aquisição de um produto contrafeito porque subentendem que a marca é rica e com a venda de um original cobrirá a venda de muitos falsos ou, então, vêem nisso um ‘castigo’ pelos altos preços cobrados. “Neste caso, o consumidor não é burlado, mas cúmplice”, dizem as autoridades espanholas.
Este “imperio de los piratas”, como lhe chama o El Pais, tem tendência a crescer. Basta passear pela Varziela e ver o número de crescente de armazéns que vão abrindo. É que numa sociedade incrivelmente consumidora e onde mais do que ‘ser’, o que conta é ‘parecer’ e, mais ainda, ‘mostrar que se tem’, este tipo de produto tem campo fértil para crescer. O sucesso profissional e o seu reflexo, o sucesso económico, são quase condições de sobrevivência na sociedade actual. Os chineses, com a sua sabedoria milenar, apenas aproveitam as nossas fraquezas para se espalharem pelo mundo ocidental. Tal como hoje se fala do sucesso da conquista de Portugal por Espanha, não pela secular via armada mas pela económica, também o perigo amarelo não vem por mísseis ou bombas, mas por produtos comerciais de baixa qualidade e preço.
(Fontes, além das citadas: Público, Sunday Times, La Vanguardia, La Razon, Le Monde Diplomatique, ed.fr)
Dupont