Tenho este post escrito desde o final de Agosto. Saiu muito grande. Já levou umas tesouradas, mas continuo a achar que é extenso para um blog. O que me acabou com a hesitação foi
este post, no Bloguítica, em que se alude ao facto de José Sócrates possuir uma fortuna avantajada, uma vez que é neto de alguém que enriqueceu com o volfrâmio, na II Guerra Mundial. É que este negócio está na base da teia que Robert Wilson urdiu em “Último Acto de Lisboa”. Então aqui vai…
Como já
aqui referi, fiquei colado à escrita de Robert Wilson, com “O Cego de Sevilha”. Mal acabei a leitura, imediatamente cancelei os livros que aguardavam a sua vez na fila do Verão e dirigi-me avidamente à FNAC para adquirir outras obras do mesmo autor. Quando me dá para paixões, nem hesito (ainda me lembro de quando descobri os Yes – no dia seguinte meti-me no comboio para o Porto, de onde regressei com toda a discografia disponível...). E foi assim que me propus derrubar as torres de quase meio milhar de páginas que constitui cada um dos livros com que o autor precedeu “O Cego de Sevilha”.
O “Último Acto em Lisboa” é mais um clássico policial, do género “whoddunit”, em que nos deparámos, novamente, com uma narrativa temporalmente repartida. Por um lado, acompanhamos Klaus Felsen, um industrial alemão, jogador e mulherengo, que é obrigado pelas SS a vir para Portugal, em 1941, com o fito de controlar o negócio do volfrâmio, material indispensável à indústria de guerra germânica. Por aqui conhecerá Manuel Abrantes, um beirão sem escrúpulos, com quem realizará proveitosos negócios, incluindo um banco que se tornanrá um dos mais importantes do País, à custa do “ouro nazi”. A vida de ambos separar-se-á quando Felsen vai para a cadeia e Abrantes fica dono e senhor da instituição bancária. Mais tarde, dois filhos seus, um deles inspector da PIDE, encarregar-se-ão de continuar a história até perto do fim do século. A acção inicia-se em 1941 e atravessa toda a nossa história, antes e depois do 25 de Abril, apresentada, quase sempre, pelos olhos de um estrangeiro, Felsen.
Alternado capítulos com aquele trama, temos um outro em que emparceiramos com Zé Coelho, da Polícia Judiciária, na investigação do homicídio de uma adolescente. O inspector é viúvo, vive com uma filha da idade da vítima, está algo inseguro emocionalmente e ainda tem de aturar um novo colega, jovem e algo intempestivo. No desenvolvimento da acção, narrada na primeira pessoa, acompanhamos o crescimento interior do pai, o seu poder de dedução e a forma como contorna os obstáculos que se lhe colocam. Na parte final do livro, as duas histórias fundem-se num desfecho completamente imprevisível que abana com toda a estrutura da sociedade portuguesa.
“A Companhia de Estranhos” é um
thriller de espionagem, com uma forte componente romântica. Também aqui começamos com uma narrativa repartida entre a Inglaterra e a Alemanha, a pátria dos dois protagonistas, Andreia e Voss. Escolhidos pelos serviços secretos para se integrarem nas respectivas delegações diplomáticas em Lisboa, acabam por se conhecer e apaixonar-se no Estoril e consumar a relação na capital portuguesa. E assim permanecem até ao dia em que falha o
golpe para eliminar Hitler, estratégia de que Voss era cúmplice. O alemão tenta fugir, é capturado e Andreia acaba por receber a notícia de que ele havia sido morto. Grávida, casa com um oficial português, e estabelece-se por cá, pactuando com o Partido Comunista na clandestinidade. Com a morte da mãe, por doença, e do marido e do filho na Guerra do Ultramar, Andreia regressa a Londres. Volta a envolver-se emocionalmente e integra-se nos Serviços Secretos, onde a sua mãe trabalhara, descobrindo que ela fora uma espia a favor da URSS, acabando, ela própria por também o ser. Já próximo do fim da Guerra Fria, é destacada para Berlim, para se encontrar com um misterioso agente duplo, que acaba por descobrir ser Voss. A partir daqui, a história acelera, culminando num final dramático, em Londres. Com este livro, o autor conquistou o “Golden Dagger Award”.
A mestria de Robert Wilson no controlo do fluir da narrativa, algo que já me tinha impressionado em “O Cego de Sevilha”, confirma-se, no que já será uma brilhante técnica de escrita, uma vez que os três livros, estruturalmente, exibem enormes semelhanças.
A primeira, óbvia, é a necessidade de começar todos os capítulos precisando, no tempo e no espaço, a localização da acção. Mais do que ajudar o leitor a guiar-se no meio de constantes analepses, a opção por esta fórmula demonstra a enorme racionalidade que o autor incute na obra, quer na sua concepção, quer no próprio desenvolvimento da intriga .
Depois, o recurso a duas narrativas que, durante boa parte da obra, correm em paralelo, sem aparente conexão, cria um efeito de montagem que não só cativa o leitor como gera uma dinâmica adicional à do próprio trama.
A nível de concepção da narrativa, há elementos comuns aos três livros. Desde logo, o facto de a acção se passar entre Portugal, Inglaterra e Alemanha, em «Último Acto em Lisboa» e «A Companhia de Estranhos». Por outro lado, aqui e também em “O Cego de Sevilha”, há personagens com uma pátria, mas “a verdade” está sempre relacionada com um terceiro país: Portugal, nos dois que hoje abordamos, Marrocos no outro.
Outra característica comum é a quase obsessão do autor em recorrer a falsas paternidades como forma de causar no leitor um forte impacto de surpresa. Nos três livros há personagens em que a paternidade biológica não é a que está plasmada no Bilhete de Identidade, o que justifica algumas das motivações das personagens. É claro que, por vezes, o desconhecimento da existência de consanguinidade conduz a situações macabras, como a sodomização de uma filha por um pai, em “Último Acto em Lisboa” . Parece-me algo repetitivo o recurso a este artifício, embora Robert Wilson o vá melhorando, atingindo a quase perfeição em “O Cego de Sevilha”.
Ao contrário do que muitas vezes encontrámos em livros policiais e de espionagem, onde se privilegia a personagem principal ou a acção, com Robert Wilson vamos encontrar um trabalho sério de caracterização dos vários intervenientes. As personagens são profundamente desenvolvidas, possibilitando ao leitor a apreciação do carácter de cada uma. Aqui não há super-heróis ou agentes secretos do género 007. São seres humanos que tentam fazer mais e melhor, dentro das suas capacidades físicas e emocionais.
Wilson descreve ao pormenor os cenários, arriscando o grotesco nos locais dos crimes. Não sendo português, a pintura que faz de Portugal, quer no tempo da II Guerra, quer nos dias de hoje, é pormenorizada e bastante factual, o que indicia que um grande trabalho de investigação foi feito para alicerçar a narrativa, serviço que foi da responsabilidade da sua mulher.
Qualquer dos três livros proporciona uma agradabilíssima leitura. No entanto, não recomendaria a sua leitura sucessiva, pois acaba por emergir um certo padrão criativo do autor, condicionando quer a apreciação autónoma de cada obra, quer o desejado efeito-surpresa final.
Dupont