Bush vs. Kerry, Take One

Gostei do embate entre Bush e Kerry e acho que o primeiro se saiu melhor, quer na parte formal, quer nos conteúdos.
Começando por estes, o Presidente mostrou que se apresentava aos americanos para continuar um trabalho por si iniciado e que tem intenções de começar. Foi firme na sua opção de lutar contra o terrorismo, uma ameaça global que põe em perigo a América. E foi aqui que ele saiu melhor do que John Kerry. É que o senador teve sempre um “mas” entalado no seu discurso: sou a favor da guerra mas ela foi mal direccionada; sou a favor do esforço de guerra mas convém não esquecer os problemas internos. Bush foi mais pragmático, estabelecendo prioridades e não cedendo um milímetro na sua convicção de que o grande problema que a América enfrente é mesmo o terrorismo e de que só há uma pessoa capaz de liderar esta política: ele próprio. Depois, para acentuar a imagem de indecisão de Kerry, Bush recordou que o seu opositor votou a favor de mais dinheiro para o Afeganistão e o Iraque, para rematar, mortífero, “será que um Chefe Maior do Exército pode ter este tipo de actuação? Qual é a mensagem que passa para as tropas?”.
É claro que houve momentos em que Kerry se saiu bem. Recordo os exemplos que usou para explicar o problema com a opção de invadir o Iraque: primeiro, o pai do Presidente, quando venceu a Guerra do Kuwait, optou por não seguir até Bagdad (entalando Bush, que não poderia dizer que o pai errou…) e que invadir o Iraque por causa do terrorismo era a mesma coisa que F.D.Roosevelt, em 1941, ter invadido o México quando os japoneses atacaram Pearl Harbour.
Mas, mais importante do que tudo, foi a atitude que marcou a diferença: enquanto John Kerry se esforçava por demonstrar que dominava os dossiers, Bush argumentava de uma forma tão simples e directa que deixava no ar a impressão que o seu adversário não percebia nada do assunto e que as suas propostas eram demagógicas, se não irrealizáveis.
No campo da imagem não tenho qualquer dúvida sobre a vantagem de Bush. Em primeiro lugar, talvez pela diferença de alturas, Bush parecia estar a “olhar de frente”, enquanto Kerry olhava “para baixo”. A escolha das gravatas, vermelha para Kerry e azul para Bush, funcionou melhor, já que acentuou a coerência do discurso com a harmonia estética. Em terceiro lugar, Bush optou por um tom coloquial, dirigindo-se aos “americanos que já me conhecem” para que “nós consigamos levar em frente a luta contra o terrorismo”; ou seja, o presidente usava a fórmula “nós para vós”, em vez de “eu para vós”, o que dá uma ideia de equipa e de familiaridade. Enquanto isso, Kerry teve de invocar pessoas que encontrou “no Iowa, no Wisconsin” para mostrar como também falava ao povo, mas fazia-o sempre na primeira pessoa do singular, “eu, eu, eu”, o que demonstra arrogância. Já dizia o meu professor de português do Ciclo Preparatório quando alguém abusava do “eu” nas redacções: “Tu deves ser um tipo importante, pá”. E Kerry abusou…
Assisti ao debate pela CNN. Os senhores da SIC-Notícias optaram pelo infeliz caminho da tradução simultânea o que resulta, como todos sabemos, na enorme confusão de não se perceber nem o que o candidato, nem o tradutor. Anos e anos de asneiras na locução da cerimónia dos Óscares de Hollywood não serviram para aprender nada…
Dupont

por Alcazar, Dupond, Dupont e Haddock

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