sábado, outubro 02, 2004

«A Vila»


Uma comunidade rural, com um visual vagamente “amish”, composta por algumas dezenas de membros, vive rodeada por uma terrível floresta, onde parecem habitar monstros. Amedrontados pelos feéricos sons provenientes das árvores, os aldeões não ousam passar para lá da fronteira que terá resultado de um acordo de não-agressão entre eles e “aqueles de quem não se pode falar”.
O respeito recíproco entre as duas “comunidades” tem outras leis que convém os humanos não esquecer e que vão desde a proibição do uso do vermelho até ofertas de carne. A vida corre suave e pacificamente entre os aldeões, regidos que são por um grupo de anciões, que tudo têm de saber e a quem tudo se reconduz. É claro que os mais jovens, sempre afoitos a quebrar regras, arriscam passar a fronteira, sendo que as consequências se abatem sobre toda a comunidade.
Mas tudo se precipita quando esta paz é quebrada porque um dos habitantes é esfaqueado. A sua vida fica em perigo pois necessita urgentemente de medicamentos que ali não existem. Para os obter, é enviada, através da floresta, a filha de um dos líderes, precisamente a que está apaixonada pelo moribundo. A rapariga é cega, mas o pai sossega-a quanto à eventualidade de lhe surgirem problemas na floresta, porque... E mais não conto, sob pena de revelar a o desenlace da história…
M. Night Shyamalan continua no terreno onde é, realmente, mestre: o fantástico. Tal com em “Signs”, também aqui não nos é permitida a observação perfeita e clara dos monstros, mas apenas a sua sombra, a sugestão da sua presença, o som que reproduzem, uma passagem fugaz. A sugestão e o suspense são armas fundamentais para prender o espectador, já dizia o Hitchcock. Aliás, Shyalaman é um confesso admirador do mestre Alfred, a quem imita nos cameos – em “A Vila”, a sua aparição é bastante fugaz e bem dissimulada, um achado de subtileza.
A ideia base do filme parece basear-se na ideia de medo e do preconceito. “Não se vai à floresta porque sempre foi assim estipulado. Não se usa vermelho porque assim está ordenado” e por aí fora. Mas a verdadeira razão, o étimo da questão, esse, ninguém o parece saber… Pior, de um modo geral, os elementos da comunidade mostram um submissão confrangedora no acatamento das regras, onde só a irreverência juvenil parece fazer a diferença. Isso, e o tolo da aldeia, claro, como já Gil Vicente sabia…
A mestria de Shyamalan no domínio e desenvolvimento do argumento é soberbo e está, cada vez mais, aprimorado. Há influências claras do cinema clássico e não pude deixar de evocar Ford quando vi os planos, quase a preto-e-branco, das caras das crianças recolhidas na cave, imóveis mas aterrorizadas pela presença dos monstros, dos quais apenas ouvíamos ruídos.
Simbolismos, omnipresentes na obra do realizador, voltam a marcar presença. O vermelho como proibição é óbvio. Uma rapariga a atravessar a floresta, com um capote e capucho, fugindo de um monstro evoca aquele conto infantil que me escuso de nomear – aliás, o capucho é amarelo, porque ela não está a fazer nada de proibido… A floresta, local ambíguo, tantas vezes vista como local sagrado, mas também como esconderijo do Mal, acaba, também aqui, por ter um duplo significado: será o limite para além do qual não se pode passar ou, antes, uma protecção dos habitantes locais para que ninguém entre?
Os actores estão todos em "underacting", com excepção de Bryce Dallas Howard, excelente no papel da rapariga cega, e de Adrien Brody, o tolo da aldeia. William Hurt, um dos meus actores favoritos, talhado para papéis sofridos como o seu nome parece indicar, está soberbo e domina todas as cenas onde entra. Brody, num papel "menor", a anos-luz de "O Pianista", convece e Sigourney Weaver é sempre um ás de trunfo. Mas excelente está Joaquin Phoenix, no seu segundo filme consecutivo com Shyamalan, a provar que, em contenção, o seu rosto sisudo é uma enorme mais-valia.
Um último comentário para a tradução do título “The Village/A Vila”. A tradução correcta seria, obviamente, “a aldeia”. Aliás, a palavra “aldeia” tem conotações bem mais rústicas, o que cairia como uma luva neste filme. Mas não, houve alguém que resolveu achar que “Vila” é que estava certo, um palavra que, actualmente, tem ecos político-administrativos. Critérios…
Dupont