quinta-feira, novembro 11, 2004

Estou mais descansado…


Comprei “As Farpas”, de Ramalho Ortigão e Eça de Queiroz, numa edição coordenada por Maria Filomena Mónica. Se fosse hoje, não tenho dúvidas que sairiam sobre a forma de blog… Mas, na altura, foram publicadas em opúsculos mensais.
O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias aumenta a cada dia. Vivemos todos ao acaso. Perfeita, absoluta indiferença de cima a baixo” Toda ávida espiritual, intelectual, parada. O tédio invadiu todas as almas. A mocidade arrasta-se envelhecida das mesas das secretárias para as mesas dos cafés. A ruína económica cresce, cresce, cresce. As quebras [falências] sucedem-se. O pequeno comércio definha, A indústria enfraquece. A sorte dos operários é lamentável. O salário diminui. A renda também diminui. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo (…) a intriga política alastra-se. O país vive numa sonolência enfastiada".
Este texto, de 1871, só vem provar uma coisa: Portugal não está mal. Esteve sempre assim. É o nosso modo natural de ser. Ainda bem. Pelo menos hoje, vou dormir descansado…
Dupont