quinta-feira, novembro 11, 2004

Na morte de Arafat


A crónica anunciada da morte de Arafat retirou o impacto que a notícia do seu fim físico poderia ter. Durante estes últimos quinze dias lá fomos assistindo a um macabro desfilar de epitáfios, projecções sobre o futuro da Palestina, escolha do local de enterro, definição da sucessão e um sem número de artigos e comentários, lamentando ou congratulando-se com o seu desaparecimento.
Sempre vi Arafat como um terrorista. E não é agora que o vou deixar de ver. Trata-se de alguém que escolheu algo mais do que a via armada para fazer valer a sua tese: optou pelo ataque indiscriminado ao inimigo, fosse ele um cidadão em passeio ou soldado em combate. Para Arafat não havia critérios. Alimentado pelo seu ódio visceral ao povo judeu, o defunto líder da OLP gerou um sem número de filhos que, mais do que lutarem por si, morriam por si. Não tenho dúvida que Arafat era um empecilho na paz do Médio Oriente. Talvez, agora, seja possível caminhar em direcção a ela.
Mas a sua morte vai bem mais longe. Afinal, nos trinta e tal anos de vida que levo, não deve ter havido uma só semana em que não me deparei com a sua cara. Desde o famoso discurso na Assembleia Geral da ONU até àquela fotografia em que ele espreita por um buraco de um muro, vão muito mais do que três décadas. Arafat tornara-se um ícone político e noticioso. Vi-o envelhecer, casar, berrar, lutar. Vi eu e viu o mundo inteiro. Agora desaparece e é mais alguém que passa a fronteira e se torna memória.
Já ontem, em conversa com o Dupond, este dizia que a morte do líder da OLP lhe recordava o falecimento de um qualquer dirigente soviético de topo: “o nosso líder está mal, mas ainda não morreu” para, finalmente, comunicarem às massas a “grande perda”. Com Arafat, realmente, passou-se algo do género, ou não fosse ele, também, um ditador. Não só assistimos à novela diária que foi o seu fim, como aturámos um sem número de gente a lamentar “aquilo que ele representava”. E o que ele representava era aquilo que agora encontrou: a morte.
Paz à sua alma - especialmente porque ele a roubou a milhares de pessoas.
Ver: "Arafat", no Aviz; "Olha um acontecimento histórico", no barnabé; "Arafat" no Contra a Corrente; "O Principe do Terror", n'Observador; "Yasser Arafat", na Rua da Judiaria.
Dupont