Anteontem à noite, na “2:”, passou um dos melhores filmes de John Ford, “As Vinhas da Ira”, a versão cinematográfica da obra homónima de John Steinbeck. Tal como Casablanca, é um filme que se vê e revê com imenso prazer, porque o seu significado é intemporal.
Tom Joad é um condenado que volta a casa, “on parole”, após ter passado, na cadeia, quatro dos sete anos a que foi condenado por homicídio. Mas, em vez do ‘status quo’ que pensava encontrar, depara com a casa abandonada e a família desaparecida. Um antigo pregador, seu conhecido, juntamente com um outro agricultor, explicam-lhe o que se está a passar: eles, arrendatários rurais, estão a ser despejados pelos caterpillars dos proprietários das terras. Tom acaba por encontrar a numerosa família, quando estes estavam prestes a abandonar o Oklahoma e partir para a Califórnia, em busca de emprego e de uma nova vida. Revoltados, mas conformados com o seu destino, Tom e a família avançam em direcção ao Pacífico. Com eles, milhares de conterrâneos seguem na mesma direcção, numa onda de pobreza e miséria. A viagem acaba por tornar-se numa odisseia, face às dificuldades que se levantam: para além da viagem em si, atravessando paragens semidesérticas, têm de enfrentar revoltosos que não concordam com a migração, proprietários que se aproveitam das paupérrimas condições vida, para pagarem salários miseráveis, para além de outros escolhos. No fim, a Califórnia aparece, mas Tom tem de fugir porque, entretanto, matara um segundo homem que ameaçava trabalhadores em greve. A família, essa, pôde descansar.
Como se pode ver pelo resumo, que não faz jus a um filme rico em detalhes, trata-se de uma história poderosa, simbólica e com claras conotações políticas.
O personagem de Tom Joad é um portento de força, interior e exterior. Quando ele chega a casa, o que vê são destroços por todo o lado: o edifício, a família, a comunidade, onde o próprio pregador perdeu a fé. Mas ele. Por um lado e a sua mãe, por outro, acabam por dar sentido à viagem e força aos restantes membros. Tom sabe que está em liberdade condicional, mas a revolta perante a injustiça e a iniquidade falam mais alto do que ele e, por vezes, toma atitudes arriscadas. Mas ele é mesmo assim. No seu famoso discurso com que acaba . A força do seu personagem é tão grande que, ainda hoje, nos EUA, falar do livro sem falar do filme, especialmente, do Tom Joad que Henry Fonda compôs, é quase impossível. A prová-lo, veja-se que Bruce Springsteen (está sempre presente nestas divagações...) gravou um álbum denominado “The Ghost of Tom Joad”, expressamente baseado na personagem do filme e não na do livro, mais de meio século depois de Steinbeck, primeiro, e Ford, depois, lhe terem injectado vida. Como imortais são as palavras de Joad - pura personificação da luta contra as injustiças - quando se despede da mãe:
“
I'll be all around in the dark - I'll be everywhere. Wherever you can look - wherever there's a fight, so hungry people can eat, I'll be there. Wherever there's a cop beatin' up a guy, I'll be there. I'll be there in the way guys yell when they're mad. I'll be there in the way kids laugh when they're hungry and they know supper's ready, and when people are eatin' the stuff they raise and livin' in the houses they built - I'll be there, too”.
Outra personagem fundamental é o da mãe, como eixo de funcionamento e suporte de toda a família. É ela a boa consciência, a bóia a quem os outros recorrem, a goma que tenta unir todos os elementos numa altura em que a fome e a morte ameaçam tudo destruir.
O simbolismo está presente em força. Imagens de Tom Joad, sozinho, subindo uma colina ou um monte, aparecem várias vezes, mostrando como o homem consegue vencer as adversidades se lutar contra elas. Mas, a mais poderosa, talvez seja a analogia bíblica, bastante evidente, com a Terra Prometida. Também aqui os emigrantes saem de uma terra que não é sua, em busca de uma vida melhor, atravessando o deserto e sofrendo ataques, não dos soldados do faraó, mas de capatazes e polícias, a mando dos donos das terras. Uma terceira apreciação prende-se com o facto de a viagem ser feita através da Route 66, o que talvez não seja um acaso, dado tratar-se da estrada seminal da América, e que, muitas vezes, é apelidada de “America’s Mother Road”.
As conotações políticas são evidentes, o que é surpreendente por se tratar de um filme de John Ford, um realizador assumidamente de direita, e que repetiria a temática naquela que é, na minha opinião, o seu melhor filme: “O Vale era Verde”, sobre os problemas e lutas dos mineiros, nas minas de Gales (onde, felizmente, não estou sozinho, basta ver
aqui e
aqui). Em “As Vinhas da Ira”, a mensagem anti-capitalista é evidente, com a chegada das máquinas que empurram os pobres camponeses para fora da terra, como também é na exploração descarada que os proprietários dos pomares fazem em relação aos desesperados em busca de trabalho. Mas convém não esquecer que estamos em plena Grande Depressão, os valores sociais estão em efervescência e Roosevelt está na presidência... Aliás, basta ver que nos “campos de refugiados”, a que os protagonistas recorrem várias vezes, tudo é uma desgraça, até que chegam a um estadual, que mais parece o Paraíso na Terra...

Uma última palavra para a fotografia, num preto-e-branco fantástico (e que a edição restaurada em DVD, só poderá enobrecer), que se traduz num jogo sombra-luz que acentua o simbolismo do filme. No mesmo sentido, não poderão ser esquecidas as imortais imagens de Dorothea Lange, de que todos conhecemos, pelo menos, a que aqui reproduzimos (“Migrant Mother”, 1936).
O filme tem e terá sempre actualidade, porque haverá sempre alguém disposto a lutar contra o sistema, contra a injustiça, por mais difícil que isso seja. Não acreditam? Vejam aqui um Tom Joad português, nesta notícia do Público.
Dupont