A Marca Amarela
A notícia correu célere nos noticiários e nas agências noticiosas: a Maconde e a Riopele iam subcontratar na China. A fonte da notícia foi o Correio da Manhã, um jornal que merce alguma, não muita, credibilidade. Segundo o diário lisboeta:
Duas das mais importantes empresas têxteis portuguesas admitem subcontratar na China a produção de peças de vestuário menos competitivas. Com a concorrência imbatível dos produtos chineses a ameaçar 100 mil postos de trabalho em Portugal, consequência da liberalização do comércio deste sector em Janeiro deste ano, Maconde e Riopele encaram como inevitável encomendar fabricos e artigos a parceiros chineses ou indianos, como forma de reduzir os custos de produção.Esta progessiva atracção pelas obesas margens de lucro do mercado chinês causa apreensão. Ainda no outro dia, num almoço de negócios, um empresário confessava-me a sua estupefacção após se ter deslocado à China e visitado uma feira de materiais de construção. "Havia lá de tudo, desde o parafuso a casas de banho inteiras, passando por granito, cimento, madeiras, tudo, tudo, e a preços que chegam a ser um quinto dos praticados em Portugal!"
Ontem, a revista El Pais Semanal, do conhecido diário espanhol, apresentava uma belíssima reportagem "A Fábrica do Mundo". Os números não são iguais aos do CM, mas não deixam de ser esmagadores: 75% dos brinquedos, 30% dos televisores, 25% das máquinas de lavar, 20% dos telefones celulares, 30% das bicicletas e 70% dos isqueiros vendidos no Mundo são feitos na China.

Lá, copia-se tudo: electrónica, relógios, DVDs, calçado, tudo é clonado, até mesmo quadros de Van Gogh, como se pode ver nesta deliciosa fotografia. Aliás, já aqui n'O Vilacondense abordámos o problema da pirataria.
A taxa anual de crescimento são uns esmagadores 9% ao ano, mas isso é feito à custa da exploração da mão de obra. Há gente a trabalhar sete dias por semana para receber 60 euros, outros esforçam-se 11 horas diários para receberem 75 euros mensais e há quem trabalhe 16, 18 e até 20 horas diárias.

Um firma de Taiwan (!!!!), KYE, emprega 2000 trabalhadores e fabrica ratos para computador. O ano passado saíram 30 milhões de unidades da sua linha de motagem. Salário de cada trabalhador: 55 euros mensais... E estamos a falar de gente com 18, 20 anos e de um país onde não há sistema de pensões e nem se ouve falar de seguros médico. Muitos vivem em alojamento fornecido pela empresa: quartos para oito pessoas e comida, por 7,5 euros mensais...

Por vezes há revoltas, prontamente esmagadas. Cerca de mil trabalhadores da Stella, outra firma de Taiwan, que produz para a Timberland e a Clark, resolveram protestar contra as condições de trabalho. A polícia prendeu os cabecilhas, que foram condenados a vários anos de cadeia. O seu advogado justificou a sentença com o facto de "servirem de exemplo aos investirdores em como os seus interesses estão garantidos" na China... É claro que o Poder vê, nestas manifestações, não a justa e legítima manifestação do proletariado, mas uma "tentativa de subverter o poder"...
No entanto, nem todos os chineses embandeiram em arco... Alguns economistas desconfiam do rótulo de "Fábrica do Mundo". As razões, para isso, são várias: o grosso das exportações está ligado a produtos de manufactura intensa e não a industrialização; depois, a China só representa 5% da produção mundial, frente aos 20% dos EUA e 15% do Japão; em terceiro lugar, a maior parte dos produtos de electrónica, por exemplo, é feito com peças importadas; em quarto lugar, a qualidade dos produtos é baixa.
Perante isto, o Governo chinês tem incentivado as actividades de investigação, promovendo a criação de marcas próprias e abrindo-se ao exterior para investimentos. A razão de ser é que o Governo já se apercebeu que um modelo baseado totalmente em negócios de baixo valor acrescentado e margens baixíssimas de lucro é insustentável.

A China parece, hoje, um lugar de contradições, um país a duas ou mais velocidades, em que as opulentas Hong-Kong e Xangai contrastam fortemente com grandes áreas do país que competiriam com a nossa Europa Medieval. Isto sem esquecer as desigualdade de armas que opõe as empresas do Mundo dito civilizado às chinesas, que não cumprem regras laborias mínimas. O certo é que não só os empresários compram "Made in China", como os próprios chineses continuam a criar entrepostos comerciais por toda a Europa. Cá em Vila do Conde temos um, como é sabido, na Vaziela, uma verdadeira Chinatown.
Tal como andámos séculos a lutar contra a Espanha, na esperança de manter a nossa independência e, agora, somos cada vez mais controlados económica e finaceiramente por "nuestros hermanso", também parece que a China não conseguiu criar um império mundial, mas ameaça fazê-lo com uma bomba atómica de repercussões imprevisíveis: os preços super-baixos!
Mais imagens sobre as fábricas chinesas aqui, sobre condições de trabalho: Asian Labour.
Dupont

por Alcazar, Dupond, Dupont e Haddock

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