terça-feira, janeiro 18, 2005

«O Cemitério dos Barcos sem Nome»

Lançado há cerca de dois anos em Portugal, “O Cemitério dos Barcos sem Nome” é o último livro de Arturo Pérez-Reverte, o “autor espanhol contemporâneo mais lido em todo o mundo”.
O argumento é bastante simples de contar, até porque gira à volta de meia-dúzia de personagens. Tudo começa num leilão, onde um experiente marinheiro, Coy, assiste a uma dramática licitação por um antigo atlas do século XVIII, entre uma atraente mulher e um homem mal encarado. A mulher, Tânger Soto, vence a parada, Coy acaba por segui-la e, claro está, por se interessar por ela. A história evolui, entre cenas de pancadaria e relatos históricos, até que ficámos a saber que a tal femme-fatale está decidida a encontrar um barco naufragado há dois séculos e meio, o Dei Gloria, proveniente de Habana, transportando uma carga misteriosa, com ligações aos Jesuítas, precisamente na altura em que estes iam ser expulsos de Espanha.


Pérez-Reverte inicia a acção em Barcelona, mas fá-la atravessar Espanha, prosseguindo em Madrid, Cádiz, Múrcia e na costa mediterrânica de Cartagena, sua terra natal. Tal como uma viagem marítima, também o livro acaba por poder dividir-se em duas partes: os preparativos em terra e a vida no mar. Na primeira há o estudo, a descoberta, o crescendo em direcção ao ‘grande momento’ da partida; na segunda, o fascínio do mar, o mergulho, a realização do desejo.
E, se há coisa que este livro faz, é homenagear o Mar. Coy conta-nos a vida de marinheiro, as técnicas de navegação, os medos das tempestades, o terror do afundamento, o respeito pelo oceano, a solidão, os navios, os capitães, as tripulações, as viagens, os portos. As suas histórias são, quase sempre monólogos, a fazerem recordar aquele outro, soberbo, de Robert Shaw, no “Tubarão”, relatando os marinheiros americanos a serem devorados por tubarões. Mas não é só a vida real que nos é contada. Todos aqueles que, um dia, escreveram sobre o Mar, têm a sua referência: Conrad, Melville, Stevenson, Homero, Patrick O’Brien, ninguém foi esquecido, nem mesmo Hergé, com o seu Tintin, que serviu até mais do que de mera inspiração, como adiante se comentará…
A magia das aventuras marítimas esfumou-se, os homens valentes e destemidos eclipsaram-se, os romances de verdaeira aventura desapareceram. Com efeito, os tempos são outros. Coy queixa-se que até os barcos já não são comandados por homens, mas por máquinas:
- (…) depressa as estrelas brilharão inutilmente sobre o mar, porque os homens já não precisam delas para procurar o seu caminho.
- Isso é mau?
- Não sei se é mau. Sei que é triste.
Se há mestria em Pérez-Reverte ela está na arte de contar a história. A acção vai evoluindo de forma consistente, as personagens são credíveis, há mistério cujo desvendar nos vai sendo inteligente e doseadamente revelado e a narrativa não perde força. É-nos dito que Tânger Soto condensa, em si, o saber e experiência das mulheres mediterrânicas que, durante séculos, deram vida às inúmeras civilizações que povoaram as margens desse mar. Se é assim, também Coy é a síntese de tantos e tantos heróis de romances, do deslumbramento de Ismael ao cinismo de Corto Maltese. E a acção de todo o livro assenta nos desejos de ambos: o dela, na busca obsessiva pelo Dei Gloria e, o dele, na busca apaixonada por ela. É claro que um tal desentendimento prenuncia tragédia, até porque, como qualquer marinheiro garantirá, “mulher a bordo dá azar”…
Este foi o segundo livro que li deste autor espanhol. O outro foi “O Clube Dumas”, que Polanski transpôs para o cinema como “A Nona Porta”. Também aí a personagem feminina, fonte do mal, consegue manipular a masculina…


Um bom livro. Excepto no final! O final é simplesmente desastroso. Não o vou revelar, mas posso dizer que a fantástica viagem que nos levou rio abaixo, desde a primeira página até perto da foz, não merecia desaguar num mar tão patético, mais próprio de filmes americanos de série B…
Merece, igualmente, algumas reticências a “homenagem” a Hergé, especialmente aos álbuns “O Segredo do Licorne” e “O Tesouro de Rackham, O Terrível” – e não “O Segredo do Unicórnio” e “O Tesouro de Rackham, o Vermelho”, sem dúvida traduções literais, mas não as oficias portuguesas. Quem conhece as aventuras de Tintin ficará espantado com a solução engendrada por Pérez-Reverte para dificultar a descoberta do Dei Gloria: estavam a usar o meridiano errado como referência. É um estratagema que Hergé usa no “Tesouro…” e a que o escritor espanhol recorre com algum despudor. Bem sei que, páginas antes, ele explica o episódio da série de banda desenhada, pela boca de Tânger Soto, mas ficou-me a impressão que isso é mais desculpa para não virem, mais tarde, com comentários de plágio do que outra coisa… Aliás, já a perseguição do corsário Chergui ao Dei Gloria faz lembrar o relato do afundamento do Licorne, no “Segredo…”. Enfim, como sabemos, se a citação é boa trata-se de uma homenagem; se for má, é plágio…
Um outro ponto que, sinceramente, me intrigou foi a mudança do tipo de narração quando a história já ia “no mar alto”… Com efeito, acompanhámos o desenrolar do trama em terceira pessoa, sempre acompanhando Coy, mas, já relativamente perto do final, o narrador apresenta-se, confessando que conhece toda a história do princípio ao fim. Não vi a mais-valia do recurso a este artifício.
Finalmente, no original, o livro chama-se “La Carta Esférica”, referência ao tal atlas com que a história se inicia e fulcral para o seu desenvolvimento. Por cá, chamaram-lhe “O Cemitério dos Barcos sem Nome”, que até soa bem, mas é apenas uma zona da costa sem grande significado no livro, pois refere-se a um ferro-velho de barcos desmantelados. Opções do tradutor…
Se recomendaria este livro? Sem qualquer dúvida, especialmente para aqueles que gostam do mar, que gostam de livros, sejam romances ou banda desenhada, enfim, para quem gosta de aventuras, mesmo que seja apenas a viajar no seu quarto, como Garrett iniciava “As Viagens da Minha Terra”…
Dupont