quinta-feira, fevereiro 17, 2005

«A Caravana Perdida»


A proposta desta semana da colecção Clássicos-Público é um dos filmes favoritos de um dos nossos mais venerados realizadores: John Ford. Aliás, foi o seu western favorito, “the closest to being what I had wanted to achieve” (in “A Pictorial History of the Western”, de Michael Parkinson e Clyde Jeavons)
Curiosamente, é um filme onde a acção é escassa, tal qual o argumento. Um grupo de mormones, cujo líder é interpretado por Ward Bond, contrata dois comerciantes de gado (Bem Johnson e Harry Carey Jr.) para servirem de guia à sua caravana, na busca da “Terra Prometida” que, para esta comunidade, fica no estado norte-americano do Utah, onde Ford filmou “A Caravana Perdida”.
O filme vale para maravilhosa fotografia que nos mostra paisagens deslumbrantes, mesmo tendo sido filmado em preto e branco. Ao contrário do que se poderia pensar, o caminho para o paraíso terrestre não implica ter de atravessar um purgatório ou sofrimento físico, antes pode ser belo e encantador. É essa uma das mensagens fulcrais do filme. Por outro lado, o facto de estarmos perante uma “caravana de paz” demonstra o quão sensível isso pode ser para quem a não conhece. Os mórmones acolhem no seu seio um grupo de bandidos e até os índios, em vez de os atacarem, mostram-se compreensivos pela demanda daquele povo.
Este filme mostra melhor do que qualquer outro o fascínio de John Ford pelo Oeste. A sempre citada frase “Eu sou John Ford, faço westerns” ganha aqui uma dimensão quase poética tal a contemplação e admiração do realizador pelo deserto e pela aventura destes outros pioneiros que em meados do século XIX partiram à procura da felicidade. Aliás, esta abordagem de uma “viagem para Oeste” é recorrente na obra de Ford, desde o regresso as raízes irlandesas de quem caminhou para Poente (O Homem Tranquilo), à fuga da miséria e da fome (As Vinhas da Ira) e os inúmeros westerns que acompanharam o evoluir da linha de fronteira, sempre, sempre, para Oeste. Mas, em “A Caravana Perdida” o realizador inverte a habitual forma da conquista pela força, optando pelo avanço conciliador e harmonioso com o mundo circundante. Porque a América também se conquistou sem ser a ferro e fogo. E com música, sim, porque o que não falta em “A Caravana Perdida” são as canções tradicionais, interpretadas pelos “The Sons of Pioneers”.
Outro elemento que poderá ajudar a ver este filme como um projecto pessoalíssimo de John Ford é o facto de ele ter ido buscar uma série de estrelas de segundo plano, aquilo a que se chama “character actors” que já integravam, de pleno direito, a “Gente de Ford” como lhe chama João Bénard da Costa. E por falar em “família”, em “A Caravana Perdida”, John Ford levou a ideia à letra: ele realizou e inventou a história; o irmão Francis foi actor; o filho Patrick co-assinou o argumento; e a filha Bárbara foi assistente de montagem...
Ward Bond, o wagonmaster, teve aqui o papel que lhe abriu as portas para o estrelato. Com efeito, o seu desempenho foi de tal forma feliz que, um par de anos volvidos, protagonizou Wagon Trail, uma série de televisão que obteve um sucesso tremendo nos EUA. Joanne Dru, Ben Johnson e Harrey Carey Jr estão à altura dos papéis, até porque, como já dissemos, eram conhecidos de John Ford.
O aplauso crítico foi, e é, enorme. Só para se ter uma ideia, no catálogo da Cinemateca lançada aquando de um ciclo dedicado a Ford, há exactamente 20 anos, João Bénard da Costa chega a comparar planos de “Wagonmaster” com telas do século XVII, para justificar a existência de arquétipos por parte do realizador na sua obra. O nosso mais extraordinário amante de cinema haveria de escrever, em “As Folhas da Cinemateca” dedicada ao realizador, que “em Ford, o bom e o belo necessariamente coincidem. A este cinema, a este filme, se pode chamar um acto de purificação
Dupont