sexta-feira, fevereiro 25, 2005

Direito à diferença


Como todos sabemos, os nossos vizinhos espanhóis têm, para connosco não só uma diferença horária, como uma diferença de horário. Mais concretamente, eles não se regem pelo mesmo horário do resto da Europa e do Mundo: levantam-se mais tarde, almoçam mais tarde, cenam mais tarde, vão para a cama por volta da meia-noite e estão no local de trabalho mais tempo que o resto dos trabalhadores comunitários.
Esta diferença que não passaria de uma característica do povo espanhol, está revelar-se contraproducente. Na verdade, os níveis de produtividade têm vindo a cair a pique, ao que não será estranho o facto de os espanhóis serem, estatisticamente, os europeus que menos horas dedicam ao sono. Por outro lado, os custos decorrentes dos cada vez mais numerosos acidentes de trabalho e de viação encetaram uma espiral ascendente que não se sabe onde irá parar. Só para se ter uma ideia, em 2003, os acidentes laborais tiveram uma tradução financeira de 13.085 milhões de euros...
Tendo como pano de fundo estas preocupações e o desejo de harmonia de horários com a Europa, nasceu a Fundação Independente, que há pouco editou uma obra marcante: “España en la hora”. O sucesso dos eventos e conferências tem sido total, mas o reflexo prático é quase nenhum. Pior, tem a oposição das organizações femininas, que vêem na pausa a meio do dia uma possibilidade de estarem com os filhos. A seu favor, a Fundação tem as empresas multinacionais que, quando se instalam em Espanha, obrigam os trabalhadores a terem um horário europeu.
Para quem, como eu, pensava que isto era uma tradição secular, a surpresa está no facto de quem não é. Na verdade, está confirmado que até cerca da década de vinte do Séc. XX, os horários espanhóis eram “normais”. Tudo mudou depois da Guerra Civil, muito embora ninguém consiga achar uma explicação precisa.
Acho esta ideia perfeitamente estúpida. A Espanha é dos espanhóis e eles é que sabem o melhor para as suas vidas. Esta história de que temos de nos “normalizar” é mais uma daquelas patranhas que a Europa dita evoluída nos quer vender. Se os países nórdicos, onde não há sol e há frio, acham que o seu modo de vida é exemplar, que fiquem lá com ele. Agora, querer obrigar outro país a ter de se dobrar perante o seu modo de vida não é exemplo, é abuso. Ainda me recordo de quando o Governo de Cavaco Silva teve a infeliz ideia de alterar a hora legal desajustando-a com a solar, para haver sintonia com o horário europeu. Era ver os miúdos a saírem de casa para irem para a escola ainda de noite, num desrespeito total pela nossa maneira de ser.
É que, em primeiro lugar, estão as pessoas e só depois os interesses económicos e outros. Bem sei que países como Portugal e Espanha já são penalizados por causa da periferia, mas um país não é uma empresa.. Depois, convém estabelecer que o problema da dessintonia horária com a Europa não é um prejuízo. É um privilégio pelo qual devemos estar dispostos a pagar. Em terceiro lugar, isto não é uma atitude reaccionário do género “eles que mudem”. Nada disso. É uma atitude democrática de respeito pelas diferenças.
Dupont