segunda-feira, fevereiro 28, 2005

«Sonhos vencidos»


(Atenção: no texto revela-se o final do filme)
Raios te partam, Clint Eastwood! Porque carga d’água tens de contar histórias destas? E porque diabo é que o fazes tão bem?
Maggie é uma miúda pobre, que se alimenta dos restos de comida do diner onde é empregada de mesa, que não tem televisão, nem nada que seja supérfluo. Tudo na sua vida é dirigido a um objectivo: ser campeã de boxe. Mas a pobre coitada nunca treinou e a sua vida já entrou na terceira década. Um dia, a sua tenacidade faz com que seja aceite na academia de boxe de Frankie, um antigo enfermeiro e treinador de boxeurs, onde também trabalha Eddie, um ex-campeão. Frankie é um tipo com problemas: o negócio nunca lhe corre de feição, o seu melhor candidato a ser campeão abandona-o, já não vê a filha há quase trinta anos e a sua Fé não parece evoluir, apesar de ir à missa todos os dias há mais de duas décadas. Ele não treina mulheres, mas ela não se importa. Fica por lá e acaba por conquistá-lo. Começam os combates, as vitórias sucedem-se, a amizade entre eles solidifica-se, até que chega o combate para disputar o título mundial, perante uma adversária traiçoeira. Um golpe sujo fá-la perder os sentidos. Na queda, bate com a cabeça no banco de descanso e parte as vértebras cervicais.
Em resumo, este é o argumento de “Million Dollar Baby” até aos vinte minutos finais. É o período em que nos entusiasmamos com a perseverança da miúda, com os seus feitos, em como nos apercebemos do efeito substituição da ausente filha dele por ela e do pai dela morto por ele. Esta interligação é subtil, mas está lá: o amor filial e o amor paternal. E só uma vez nos é expressamente referida: "Mo cuishle." It means "my darling. My blood."
Sonhos vencidos/Million Dollar Baby” é um filme que tem o mundo do boxe como cenário. Aliás, que outro desporto metaforizaria tão bem o combate de uma mulher pelo seu sonho, a luta pelo sentido da sua vida?
Quando Maggie fica tetraplégica, ele não a abandona. E quando ela lhe pede que ponha fim ao seu sofrimento, ele recusa, mas acaba por ceder. A uma filha nunca se diz que não.
A verdadeira e literal descida aos infernos de Frankie é o momento sublime do filme. Ele fala com o padre sobre o pedido de Maggie, que o padre, obviamente, lhe aconselha a não fazer, porque, senão, sentir-se-á perdido. No fundo, não só seria perder uma segunda filha, como quase renegar a Deus. A sua vida tornar-se-ia um inferno. Como uma vez um padre, há bastantes anos, me disse, “o inferno não é uma caverna onde as almas ardem ou um local de tortura; o Inferno é o sofrimento do homem pela ausência de Deus”. Frankie, bem sabendo disto, optou por mergulhar de cabeça no Inferno.
Depois de o fazer, nunca mais foi visto. Saí do filme a pensar para onde teria ido. Gostei de imaginar que foi ter com a filha. Mas talvez ainda ande por aí, por estradas e cafés, em busca de um sentido para a vida. Sim, porque este filme não é sobre a eutanásia. É, sim, sobre a vida e o sentido que lhe damos. Maggie esteve por cá pouco tempo, mas como ela própria lhe disse, alcançou imenso. E Eddie, o “grilo-falante” desta história sem pinóquios, confirmou que muita gente passa por esta vida sem a viver realmente. Porque ela não vale pelo tempo que ela demora, mas por aquilo que dela tiramos. Neste sentido, o título português é infeliz.
Hillary Swank, como Maggie, está inultrapassável, mostrando uma curiosa queda para interpretar papéis naturalmente masculinos. Morgan Freeman, a boa consciência, dá mais uma lição de underacting. Clint Eastwood, o realizador-actor que veste a pele de Frankie, assina mais um filme memorável. Homem seco, sem rodeios, conta histórias duras, de gente que sofre uma dor do tamanho da vida. O ano passado foram os gritos de Sean Penn : “My little girl! My little girl!”, nesse rio místico que nos fez transbordar de emoção; este ano, é Frankie quem grita “my little girl”, só que nós não ouvimos. Só que é isso é isso que está na sua voz embargada, nos olhos húmidos que a vêem, nos lábios que dela se despedem. "Mo cuishle".
Eastwood é mesmo assim, faz-nos pensar, faz-nos sentir, faz-nos viver. Se há justiça neste mundo, daqui a umas horas ele vai erguer a estatueta dourada de melhor actor. E eu dava tudo para lhe dar um abraço.
Dupont