terça-feira, fevereiro 22, 2005

«Uma agulha em palheiro»/«À espera no centeio»


Por vezes, há livros que estão arrumados na biblioteca e, durante anos, namoriscam quase diariamente connosco: “então, quando é que me vais ler?”, dizem. “Um dia destes”, respondo. “The Catcher in the Rye” é um desses casos. Esteve anos e anos enclausurado na letra “s”, de “Salinger, JD”. A semana passada libertei-o. Curiosamente, não o fiz nessa versão, mas sim numa nova, intitulada “A espera no Centeio”, da .....
The Catcher in the Rye” é daqueles obras que já se ouviu falar tanto dela que até parece que já se leu sem lhe ter posto a vista em cima. O livro é citado abundantemente, no cinema e na literatura e não deve haver escritor americano da segunda metade do século XX que não o mencione como influência. E, depois, claro, houve aquela ligação à morte de John Lennon. John Hinckley, quando assassinou o mais genial dos quatro Beatles, querendo impressionar Jodie Foster, tinha no bolso “The Catcher in the Rye”. Por isso, foi com curiosidade que me atirei ao mais famoso livro da curta bibliografia de JD Salinger.
A acção tem como protagonista um jovem, ainda menor, e narra cerca de dois dias da sua vida, precisamente os que se seguiram à sua expulsão do colégio onde estava matriculado. Depois de algumas conversas com os amigos, parte para a vizinha cidade de Nova Iorque, onde deambula por hotéis, bares, antigas paixões, a família e amigos. É só isto. Não há mais nada. Durante esse período nada de relevante acontece. Onde está, então, o tão propalado fascínio do livro, que faz com que 250.000 americanos, todos os anos, saiam de uma livraria com “The Catcher in the Rye” na mão? A resposta é bastante simples: na aparente honestidade da visão do mundo de Holden que ele próprio nos narra. A percepção e o entendimento que ele faz da sua existência é, essencialmente, desinteressante, uma vez que comenta e critica coisas absolutamente banais. Mas não seremos todos assim? Não nos irrita o modo como um nosso conhecido nos saúda ou a mania de sorver o café da colega de escritório? Pois Holden tem centenas destes reparos, destas irritações, que ele odeia…
Com efeito, o protagonista pronuncia-se sobre tudo e sobre todos os que lhe aparecem pela frente. E fá-lo de uma forma directa, sem grande profundidade, tal qual o fazem os adolescentes. É capaz de amar e odiar algo numa pessoa ou, até mesmo, essa pessoa, apenas no espaço de um minuto. Deseja ter relações sexuais mas, no último minuto, arrepende-se. Quer agredir um colega mas, quando este o ataca e o imobiliza, entra num processo de auto-justificação, afirmando ser pacifista... Analisa o meio que o envolve com um cinismo profundo, dizendo mal de tudo, naquela atitude teenager de achar que recorrer ao ‘não’ é uma forma de afirmação, enquanto usar o ‘sim’ indicia fraqueza. Revela desprezo pelos mais velhos que com ele se cruzam e vê a realidade sempre com ironia e gozo. O sarcasmo, aliás, parece ser a grande arma de defesa. A sua aparente segurança esconde, na verdade, uma enorme insegurança que ele procura disfarçar mentindo, inventando e considerando-se superior aos demais. Aliás, quando as coisas não estão sob o seu controlo, o protagonista “descarrega” abrindo e fechando uma torneira ou acendendo fósforos.
No fundo, Holden encontra-se numa encruzilhada. Ainda não é adulto, não gosta do que vê no mundo dos adultos e sabe que vai perder a pureza da infância. Daí a sua preocupação com a irmãzinha, com os palavrões escritos na escola desta, com o destino dos patos do lago durante o Inverno. Aliás, em sonhos, Holden fantasia ser o protector das crianças que brincam junto ao precipício, esperando-as escondido no centeio.
Assim, “The Catcher in the Rye” acaba por ser um livro iniciático, revelador da enorme transformação que é entrar na idade adulta. Talvez o livro ganhe outra dimensão se lido nessa fase turbulenta da vida. Hoje, a caminho dos quarenta, torna-se um retrato curioso de uma etapa de crescimento que já foi e que não volta. Aliás, se tivesse um livro que me marcou, nesse tempo, teria de falar em “O Fio da Navalha”, de Somerset Maugham. Talvez porque tinha respostas mais adaptadas às minhas dúvidas...
Dupont