"Introdução à Psicanálise Lusa", por Vasco da Gama e Ferreira Fernandes

O "fado do coitadinho" é, como todos sabemos, o verdadeiro hino nacional. Os portugueses são uns coitados, sempre em dificuldades e com o mundo inteiro em cima deles. Os "outros" é que são espertos, vivem bem, têm dinheiro certamente sem precisar de trabalhar, enfim, os "outros" é que são felizes. Mas, por vezes, há um português que rema contra esta maré de pessimismo. Não são muitos, mas lá vão aparecendo.
Ferreira Fernandes, sempre ele, escreveu, na Sábado, sobre a diferença entre Zheng He e Vasco da Gama e a diferença que pode decorrer dos actos de duas pessoas, com os mesmos objectivos, quando apenas uma delas leva o seu propósito até ao fim.
Mas quem é Zhang He? Foi um antigo almirante chinês que, no início do Século XV, deixou os mares da China, atravessou o Indíco e chegou à costa de Zanzibar, com uma frota de 300 navios e 37 mil marinheiros. Depois voltou para trás. Zhang He era eunuco, o que tem muito a ver para esta história... Acontece que, 500 anos depois, um outro almirante chinês, Zheng Ming, vai fazer a mesma viagem, apenas com um barco, para evocar o seu antecessor militar. A motivação surgiu-lhe num concurso de misses, na China, quando uma concocorrente respondeu 'Colombo' ao ser-lhe pedido que indicasse um navegador histórico. Para o militar chinês, a miss deveria ter respondido "Zhang He".
E é aqui que o génio de Ferreira Fernandes emerge, invocando Vasco da Gama:
«(...)A grande e maravilhosa viagem de Zheng He tem um senão: voltou para trás em Zanzibar. Foi uma maravilha incompleta, assim como é para a conservação da espécie humana um beijo casto. Não se tendo ido mais longe, foi nada, foi um bom momento estéril. Décadas depois, tendo chegado a Zanzibar, vindo de Lisboa, Vasco da Gama não parou, foi até Calecut. E os seus continuaram, depois, para Malaca e para o Japão. Não foi só um beijo, foi um acto sexual completo do qual nasceu o mundo de hoje. O Ocidente e o Oriente estavam unidos para sempre, o mundo redondo de grávido»Ter 'visão' significa isso mesmo: ter vontade de rasgar, de colocar a semente para conceber algo novo. Hoje, poucos de nós poderemos afirmar-nos como herdeiros de Vasco da Gama. Dentro de uma esmagadora maioria, dividimo-nos entre os descendentes dos marinheiros que obedeciam ao almirante, e, na maior parte, os que têm nas veias o sangue do Velho do Restelo.
Dupont

por Alcazar, Dupond, Dupont e Haddock

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