quinta-feira, março 03, 2005

«Macao»


O último filme de Josef von Sternberg é, também, a última oferta do Público-Clássicos. Não é um filme marcante na história do cinema, mas ainda hoje é apreciado, especialmente pelos admiradores da quase lendária arte de composição cénica do realizador.
"Macao" conta a história de dois ocidentais vagueando pelo exótico Extremo Oriente, cujas vidas acabam por se cruzar. Conhecem-se quando Nick (Robert Mitchum) é atingido por um sapato de Julie (Jane Russell) e, a partir daí, é uma sucessão de intrigas e traições sem fim. Tudo piora quando ambos se envolvem com o dono de um casino local (Brad Dexter). Nick tem um esqueleto no armário, ela é oportunista e o empresário, claro, é corrupto e maquiavélico. Há quem considere que estamos perante um film noir, mas muitos defendem que não: há crime, há suspense, há mistério, há personagens perigosos, há inúmeras cenas nocturnas, mas faltará aquele toque, aquela atmosfera que se respira num verdadeiro exemplar do cimema negro, incompatível com música e, ainda menos, com cenários orientais...
Falar de Jane Russel é invocar uma das maiores sex-symbols que Hollywood ofereceu ao Mundo. O cartaz de "Outlaw" é inesquecível, mas, em "Macao", a actriz não deixa os créditos – leia-se, o corpo - por mãos alheias, apresentando-se sensual e glamorosa. Na altura, Russell fazia o penoso percurso para se afirmar como actriz. Tem aqui um excelente desempenho, apenas superado, defendem muitos, pelo fime seguinte. “Os Homens Preferem as Loiras”, onde esta deusa morena contracena com a deusa loira, Marilyn Monroe, sob a batuta desse génio que dá pelo nome de Howard Hawks.
O contraponto masculino, da responsabilidade de Robert Mitchum, não lhe fica atrás, com a sua atitude cool e cínica, quase um étimo do ideal varonil. O actor começava a dar nas vistas em Hollywood, adivinhando-se uma carreira brilhante, o que veio a acontecer, quase sempre em papéis duros e másculos.
Já Josef von Sternberg, um dos elementos da Escola de Viena que partiram para a Europa, tem aqui o seu ocaso criativo na Meca do Cinema. Ao contrário do citado Hawks (“dêem-me uma história que eu faço um filme”...), Sternberg dava uma imensa atenção à composição e enquadramento dos takes. As cenas filmadas no interior do acsino, em “Macao”, são um bom exemplo disso. O realizador era do tipo de pessoa que não deixava nada ao acaso, desde o cenário, aos movimentos de câmaras (adorava o travelling paralelo), à iluminação, sem esquecer o guarda-roupa, muitas vezes sumptuosos, como os vestidos de noite de Jane Russell. O problema com Sternberg é que não só era ditador e irascível, como já estava velho e tinha imensas dificuldades em levar as filmagens até ao fim. No caso de “Macao”, várias cenas acabaram por ser dirigidas por Nicholas Ray.
A colecção de filmes clássicos não acaba exactamente com um, mas “Macao” é mais cinema que muitos dos filmes que hoje poluem as salas de espectáculos.
Dupont