domingo, março 20, 2005

Meu caro presidente


Eu compreendo que você esteja nervoso e que as revelações dos últimos dias não lhe sejam favoráveis. Ainda por cima teve o azar de ficar engavetado (salvo seja!...) com Fátima Felgueiras, o que, como já aqui dissemos, é uma enorme injustiça.
Mas, que Diabo, que assessores é que V.Exª tem para lhe aconselharem a dar semelhante tiro no pé, anunciando que iria processar os auditores do Tribunal de Contas? Vejamos:
V. Exª foi meter-se com a classe mais corporativa que existe neste país. Nem farmacêuticos, nem advogados, nem médicos, todos juntos, conseguem chegar aos calcanhares de corporativismo da classe dos Magistrados Judiciais. Pergunte à mulher do seu vereador, António Caetano, e verá com quem se meteu. É que, convém não esquecer, os tais auditores estão no Tribunal de Contas sob a direcção, fiscalização e comando de juízes. E não faz ideia como eles são quando ficam zangados…
Depois, não sei se mediu bem as consequências da sua posição, mas, em Portugal, actualmente, o Tribunal de Contas goza de um prestígio e de uma credibilidade junto da população talvez só comparável ao Tribunal Constitucional e à Comissão de Mercado de Valores Imobiliários. Atacá-los, lançando suspeitas sob o trabalho e intenção das pessoas que lá trabalham é um risco enorme, diria mesmo, suicida…
Em terceiro lugar, não sei se reparou, mas esta moeda também tem duas faces: é que eles também se podem sentir ofendidos com a sua atitude e entender, até, reclamar duas coisas – difamação, por ofensa à honra; denúncia caluniosa, por estar a fazer uma queixa cujos contornos V.Exª sabe não integrarem crime…
Finalmente, o seu partido tem cada vez menos paciência e tolerância para com os autarcas que não preencham os requisitos de mudança e imagem que José Sócrates pretende...
Tudo somado, a sua atitude deixa transparecer uma situação de pouca serenidade, menos esclarecimento e demonstrando algum desespero que não parece compatível com a calma que invoca que sempre teve. Afinal, as decisões dos Tribunais são sindicáveis em sede própria e com mecanismo próprio: o recurso. Qualquer licenciado em direito acabado de sair da Faculdade explica-lhe isso.
Como se toda esta salada não bastasse, V.Exª ainda cai em asneira ainda mais grossa ao não resistir à tentação de auto-gabanço. Dizer que esta situação só tem a dimensão que tem porque há, em Vila do Conde, um autarca com a dimensão de Mário Almeida, é feio. Mencionar o seu próprio nome, como o ouvi na TSF, para ilustrar a sua importância, isso, então, já nem merece comentário.
Dupont