É sempre complicado escrever sobre alguém de quem se é um fã incondicional. É precisamente o que acontece comigo e com Bruce Springsteen. São mais de vinte anos a seguir a carreira do melhor compositor contemporâneo americano. Daí que a saída de um novo trabalho, o que acontece hoje, seja um momento especial, aguardado com natural ansiedade, mas também com a certeza de que, dele, nada inferior a “bom” poderá vir…
E, desde já afirmo, “
Devils & Dust” é um dos seus melhores trabalhos. Desde logo, porque mostra a faceta que mais nele aprecio: as composições intimistas, melancólicas e reveladoras da condição humana, como muito poucos intérpretes contemporâneos conseguem alcançar. E, também, porque Springsteen, depois de “
The Rising”, volta ao seus temas recorrentes, cantando pequenas histórias sobre gente comum, aquela a quem o destino reservou o lado negro do
american dream…

O álbum abre com a canção que dá título a este trabalho,
“Devils & Dust”. A voz é a de um soldado, hesitante perante o que tem de fazer. É que, se o fizer, poderá perder os seus próprios valores, aqueles em que sempre acreditou como guias da sua individualidade e da do seu país. Este verdade interior, aqui, alcança-se “
when I look into tour eyes”, como ocorre noutros momentos da obra de Springsteen. Segue-se “
All the way home”, onde Bruce aborda o tema do homem que perdeu a mulher por sua culpa e que procura redimir-se da sua asneira, desabafando que “
if you don't feel like bein' alone / Baby I could walk you all the way home”.
Segue-se “
Reno”, uma canção diferente, que não fala de amor, mas de sexo com uma
stripper; ou seja, no fundo, Springsteen fala-nos do efeito da falta de amor. A letra é bastante descritiva do que acontece, mas, no final, o sabor amargo que o protagonista sente mais não é do que a prova de que aquele caminho não é o indicado para (re)encontrar a felicidade, muito menos numa cidade de jogo e vícios como Reno. O álbum avança com “
Long time coming”, onde Springsteen volta a falar das diversas relações que a paternidade pode ter. Julgo que quer falar da sua própria, não só na que ele representa para com os seus filhos, mas também da do seu pai para com ele, alguém com quem teve uma relação algo conflituosa. Quando canta “
your mistakes will be your own / That your sins will be your own” Bruce quer dizer reafirmar isso mesmo: que os erros de um pai, no sentido de father figure, pesam apenas nele, e não nos filhos. Reflectem-se nestes, sim, mas não é culpa deles. Quererá expiar algo?
“
Black Cowboys” mostra-nos toda a excelência do Boss na construção de uma história. Começa por descrever um miúdo afogado perante o amor possessivo de uma mãe. Mas, no momento em que ela encontra outro colo, ele sabe que é tempo de partir. Este verdadeiro rito de passagem para a idade adulta tem eco na figura pioneira do
cowboy, símbolo americano de "fronteira", da conquista do desconhecido. Mas Springsteen vai mais longe, ao colocar o personagem nessa imagem clássica e imortal dos
westerns: o vaqueiro solitário a caminhar em direcção a um horizonte onde um sol vermelho se põe…
A canção seguinte é “
Maria’s Bed”. A cama como símbolo do conforto e reconforto do
working class man, o seu farol: “
Ain't nothing like a light that shines on me in Maria's bed”. Aqui, encontramos um operário que trabalha numa auto-estrada, que mais não é do que uma das metáforas clássicas de Springsteen, a par de “rio”, para simbolizar “a vida”. O álbum prossegue com “
Silver Palomino”, a história de um miúdo, órfão de mãe, demasiado cedo, mas que se liberta da tristeza e da dor quando cavalga num palomino prateado que o leva, de novo, para junto da sua mãe.
“
Jesus was an only son” é a canção seguinte, provavelmente a que mais surpreende em todo o álbum, já que a abordagem religiosa não é incidental, como no resto da sua obra, mas principal. Springsteen canta a dor de Maria, mas põe em Jesus palavras de conforto, quando este lhe relembra que a alma do universo, quando quis criar um Mundo, só teve de o desejar…

“
Leah” é mais um hino à figura do pai de família, fonte de subsistência e protecção da família. Mais uma vez, depois de “
My father’s house” ou “
Mansion on the hill”, Bruce volta a evocar a imagem da casa construída num local alto, qual castelo para proteger, primeiro a mulher amada e, depois, constituir família em segurança: “
I wanna build me a house, on higher ground(…)With Leah”. Segue-se “
The Hitter”, outra letra brilhante, que roda novamente à volta de um filho e de uma mãe, em que o primeiro “traiu” as esperanças desta. Um dia volta e a única coisa que quer é o regresso ao local onde foi feliz: “
I ask of you nothin', not a kiss not a smile / Just open the door and let me lie down for a while”.
A penúltima música é “
All I'm thinkin' about”, talvez a menos conseguida de “
Devils & Dust”. Leve, com balanço e batida, contrasta com o resto do tom do álbum. Finalmente, “
Matamoros Banks”, uma canção que poderia constituir um díptico com “
Sinaloa Cowboys”, do álbum "
The Ghost of Tom Joad", já que a temática é a mesma: emigrantes
chicanos sem sorte, à procura dela do lado americano da fronteira. Para isso, atravessam-na ilegalmente, numa história sempre trágica.
O tom geral de “
Devils & Dust” é melancólico. Mas Springsteen sempre o foi, muito embora, em muitas composições, as letras sejam acompanhadas de música alegre e dançável. Mas a angústia, a tristeza está quase sempre lá. Springsteen não é português, mas quase aposto que tem lá um bocadinho desta alma lusa, triste e eternamente insatisfeita… O tema da família e das relações entre os seus membros percorre quase todo o disco, algo que sempre foi importantíssimo na sua obra. Quem não se lembra de “
Highway Patrolman”, na obra-prima “
Nebraska”: “
Man turns his back on his family well he just ain't no good”.
Mas, descendo mais um degrau na interpretação do álbum, o significado de "
pai" e de "
mãe" só poderá ser um: a própria América. Na verdade, o país-continente também é progenitor da geração que hoje detém o poder, a geração que sofreu ataques terroristas e que fez ataques militares a outros países. A América é, por excelência, a terra de promessas para os seus filhos. Só que, por vezes, o que lhes pede nem sempre é o prometido, e a reacção deles nem sempre é a esperada, e que só encontra "
demónios e pó". No fundo, voltamos ao soldado da música inicial, com a mão no gatiçho e com medo de tomar uma decisão que signifique o fim dos seus sonhos. "
Is a dream a lie if it doesn't come true /or is it something worse", já Springsteen cantava em "
The River", já lá vão quase trinta anos...
É natural que se compare este álbum a “
The Ghost of Tom Joad”. Esteticamente tem algumas semelhanças, mas julgo que tom não é tão sombrio. Depois de um certo passo em falso, nesse álbum quase temático sobre o 9/11 que foi “
The Rising”, Bruce Springsteen volta a terrenos estéticos que conhece como ninguém. E fá-lo, repito, com um dos melhores álbuns da sua carreira e, certamente, um dos melhores discos de 2005.
Dupont
ADITAMENTO: ver também a excelente posta "Devils & Dust", no Estradas Perdidas, da autoria de Nuno Ferreira. O blog faz hoje um ano e, a título de presente de aniversário, entra directamente nos nossos links. Parabéns, Nuno.