sexta-feira, abril 01, 2005

A Igreja sob ataque? - II

Dan Brown, com “O Código Da Vinci” não se limitou a vender milhões de exemplares: pôs muita gente a ler, o que é óptimo, foi motivo de incontáveis conversas e irritou uma instituição tão veneranda como conservadora, como o é a Igreja Católica.


O livro já foi por nós aqui analisado e, confesso, nada faria prever as reacções que se desencadearam. A mistura de investigação policial com História e Religião revelou-se um verdadeiro jackpot literário, misturando sagazmente mito com factos, realidade e ficção. É verdade que a maior parte dos monumentos ali referidos existem, mas não com as características que Dan Brown lhe deu; o Priorado de Sião, tanto quanto se saiba, apenas foi criado em 1956; os Templários refugiaram-se, efectivamente, em Inglaterra e aliaram-se aos escoceses; as letras “PS” na Igreja do Saint-Sulpice não se referem ao mencionado Prioriado mas a Saint Pierre; a Linha do Destino nessa igreja não conduz a nenhum segredo, apenas materializa o meridiano de Paris; a satânica Pirâmide do Louvre não tem os convenientes 666 losangos e ângulos em vidro, mas 793… E podíamos continuar. Muito do “encantamento” do livro reside, precisamente, no uso e abuso de fontes que pouco têm de exacto. E, depois, claro, a aceitação de suposições e afirmações como verdadeiras. É claro que para os partidários de uma Teoria da Conspiração, as mentiras existem precisamente para enganar os incrédulos…
Se fosse só isto, poderiam surgir umas vagas de comentários. Só que o livro põe em causa a própria vida de Jesus, no sentido em que ela nos é apresentada pelas escrituras. Mais: que ainda hoje existiriam descendentes de Cristo, objecto da protecção do dito priorado. E que Maria Madalena era, na verdade, o Santo Graal, o cálice que acolheu não o sangue, mas a semente de Cristo. Como se tal já não bastasse para armar uma tempestade de dimensões globais, Dan Brown resolveu advertir os leitores afirmando, no início do livro, que os locais e referências eram verdadeiros.
A Igreja Católica reagiu mal à dimensão do fenómeno “Código Da Vinci”. Mais de uma ano depois, organizam-se palestras e conferências para “descodificar o Código”, como sagazmente referiu a revista francesa “História”. Ou seja, o Vaticano, passado o tempo das fogueiras e de outras armas de conversão maciça e por não ter algo de equivalente à fatwa muçulmana (Rushdie não teve essa sorte, por exemplo…), opta por métodos modernos para que o rebanho não alinhe nesta nova edição do Bezerro de Ouro.


O que é estranho é que a Igreja só se mexeu quando o livro atingiu atenção mundial e vendas astronómicas. Nós já aqui dele falámos há quase um ano, quando a edição em língua inglesa caminha já para os dois… Ou seja, o que aconteceu é que foi a dimensão e não a materialidade do fenómeno que pôs a Igreja em campo. Para qualquer crente, estou convicto, o importante é a Palavra de Cristo e, essa, do que já li de Dan Brown, nas suas duas mais famosas obras, é intocada. Talvez possa assustar a Igreja em algumas das suas considerações, dogmas e princípios. Talvez. Mas se não se puder questionar senão sob capa de heresia, então é fácil saber quem é que está errado… Por outro lado, em “Anjos e Demónios”, o livro anterior, Dan Brown circulou no Vaticano com enorme à vontade e construiu uma obra que, na sua essência e tomado do mesmo ponto de vista que “O Código…” está a ser levado, poderia abalar com o sentido da Igreja como grupo de homens. Não me recordo de ter lido qualquer comentário recriminador por parte das autoridades eclesiásticas.
Parece-me, assim, que a Igreja deveria manter a sua posição de serenidade e olhar para o romance como aquilo que, efectivamente, ele é: um romance de ficção. Está bem feito, é certo, e ainda tem esse estranho condão de pôr os leitores a discutirem esta ficção como se ela fosse verdade. Ora, sendo romance, a liberdade criativa tem roda livre e terá de ser nesse sentido que deverá ser lido. Gostaria de saber, por exemplo, caso este livro fosse apresentado na roupagem de ensaio e uns quantos eruditos a viessem reduzir a pó, se a sua dimensão seria algo de semelhante… E se a Igreja reagiria assim, até porque todos os dias saem do prelo centenas de livros e filmes com aura de “arte”, sobre guerra, assassinatos, serial-killers, pornografia, e não a vejo a tomar medidas e posições concretas sobre isso.
Dan Brown, se tiver um pingo de inteligência - e certamente tem muitos... - deve estar a rebolar-se de riso. Provavelmente, nunca lhe passou pela cabeça (nem à sua editora) ter a Igreja Católica a promover-lhe o livro, dirigindo-se a um bilião de pessoas dizendo-lhe "não leiam o livro". Quem é que não sabe que "o fruto proibido é o mais apetecido"?
Na página 352 de “Anjos e Demónios”, Dan Brown pôs na boca de uma das principais personagens a seguinte frase: “Não há nada como a publicidade negativa para fazer andar os negócios”. É preciso dizer mais alguma coisa?
Mas também é verdade que a melhor prova da existência do Diabo é fazer-nos acreditar que ele não existe….
Dupont