domingo, abril 03, 2005

João Paulo II

Quando procuro dar um rosto a Deus, acabo sempre por visualizar, como muita gente, um velhinho de barbas brancas. Curiosamente, quando olhava para João Paulo II vinha-me, quase sempre, a ideia de “avozinho”. Na verdade, o Papa transmitia-me uma sensação de enorme proximidade, arriscava mesmo dizer, de familiaridade. Foi algo que nunca cultivei, surgiu naturalmente. Talvez porque tinha um avô mais ou menos assim…
Mas sei que não. A razão dessa inexplicável comunhão prendia-se, obviamente, com a dimensão humana de Karol Woytila. O sua chegada ao papado aconteceu quando eu tinha apenas 10 anos. Mas, como só acontece com as pessoas de família, a sua presença acompanhou-me durante toda a minha vida de adolescente e de adulto. Até agora.


Castel Gandolfo, 1982

Só o vi uma vez, integrado num grupo de portugueses em viagem por Itália. Foi em Castel Gandolfo, residência oficial de férias do Papa, no Verão de 1982, onde tirei esta fotografia. O recinto não era grande, quando comparado com a Praça de S.Pedro, mas estava lotado de pessoas, conversando distraidamente enquanto aguardavam a sua chegada. No momento em que João Paulo II assomou à janela foi como se um choque eléctrico tivesse atravessado os presentes e os fizesse explodir de alegria. Sua Santidade não estava longe, era um primeiro andar, mas parecia olhar para cada pessoa em exclusividade, como, depois, em conversa, acabámos por confessar uns aos outros. Ouvimos as suas palavras, naquele seu característico timbre e saltámos de alegria quando se dirigiu aos “irmãos de língua portuguesa”…
Mas, claro, o que mais impressiona é a sua obra, verdadeiramente excepcional. O seu diálogo com outras religiões, objectivado num ecumenismo que unisse os biliões de seres humanos do planeta, foi uma daquelas atitudes que transcende a esmagadora maioria dos seres humanos, pela liberdade, tolerância e respeito pela diferença que significa. Foi em Assis, terra desse Francisco despojado de riqueza exterior mas opulento em valor intrínseco. Não, na verdade não podia ter ocorrido noutro sítio. Convidou líderes religiosos de centena e meia de confissões, que aceitaram o seu apelo. João Paulo II arriscou, mas conseguiu.
E que dizer da luta em que se integrou contra o Comunismo, guiada por dois faróis: o espiritual, oseu, e o material, personificado nesse enorme Presidente que foi Ronald Reagan? Neste cantinho do Mundo, onde a esquerda profunda e bolorenta ainda sobrevive, esta é uma vitória da liberdade que custa a engolir a muita gente. Mas João Paulo II, que havia vivido décadas dentro da Cortina de Ferro, bem sabia a urgência e a necessidade de libertar o Mundo da praga comunista. O Papa lutou e conseguiu.
E num planeta mergulhado num ambiente hedonista e materialista, lá tivemos alguém
para nos chamar à atenção que assim não íamos a lado nenhum. O Homem é carne, mas também espírito, mas parece que só estamos a dar atenção à primeira parte… Aqui talvez não tenha atingido o seu objectivo. Mas fez o seu papel, alertando, esclarecendo, indicando o caminho e não se deixando intimidar ou calar por quem quer que fosse. Aliás, num momento em que se quer legalizar o assassínio com a liberalização total do aborto e com a permissividade face à eutanásia, o Papa deu o exemplo em como se pode lutar e acreditar até bem perto da morte.
João Paulo II era o líder de uma Igreja que se assumiu como contemporânea, próxima e viva. Deve-o a ele. Não sei como será daqui para a frente, mas, como em qualquer organização, a sucessão de um líder carismático é sempre complicada. Só que a Igreja dispõe de uma enorme vantagem: tem Deus a velar por si.
«João Paulo II, no Céu, onde certamente estás, muito obrigado».
Dupont