Plano (do) Mestre
Há bem pouco tempo, a Câmara Municipal do Porto apresentou o Masterplan da Porto Vivo-Sociedade de Reabilitação Urbana para a reabilitação da Baixa da cidade. O custo será de 2,7 mil milhões de euros, quantia que Rui Rio acha necessária para salvar 5.785 edifícios, no espaço de uma década. Para quem deixou fugir uma “âncora” com a dimensão económica e simbólica do El Corte Inglês, é muita promessa, convenhamos…
A este propósito, Carlos Romero, na edição de sábado do Local-Público (acesso online pago…) escrevia:
“O êxito deste plano pressupõe a articulação de uma série de medidas que desemboquem num desígnio comum. Não é possível, por exemplo, pensar na recuperação da vivência urbana no miolo da cidade e na modernização comercial da Baixa sem uma modificação da lei do arrendamento. Não é possível manter portas abertas de lojas cuja única finalidade parece ser a de tentar negociar o espaço para mais uma agência bancária ou seguradora ou para uma nova loja de um qualquer franchise internacional. É contraproducente avançar com intervenções avulsas em espaços limitados, sem articulação com medidas estruturais abrangentes; o completo falhanço da tentativa de revitalização da Praça de Lisboa, junto à Torre dos Clérigos, é um sinal deprimente da inutilidade de criar oásis de vitalidade e animação no meio de uma ambiente envelhecido e parado no tempo”

E, de repente, lembrei-me da novíssima Praça José Régio (na imagem), inaugurada há semanas, aqui em Vila do Conde. É que as situações são análogas. Primeiro, ambas parecem ter sido construídas sobre um parque de estacionamento; ambas foram construídas como que para fora viverem para dentro de si e não abertas à cidade; e, terceiro, ambos se encontram na zona antiga e, até, histórica, de cada cidade.
Já passei várias vezes pela Praça que homenageia o nosso maior vulto no campo das letras. O cenário, de dia ou de noite, é desolador. As lojas parecem ainda em obras, está tudo por inaugurar, o público não aflui. Prova disso é que o parque de estacionamento está, literalmente, às moscas. Por duas vezes, o meu carro era o único lá estacionado… E o preço é simbólico: 30 cêntimos a hora. O Alexandre Raposo já aqui referiu que o parque fecha à uma da manhã, o que condiciona a utilização do mesmo. Talvez, mas parece-me que isso é só parte do problema. A verdade é que aquele espaço não tem qualquer chamariz para os vilacondenses. Por norma, já saímos pouco e, quando o fazemos, ou vamos para a zona das Alamedas ou fugimos às obras e vamos para o Norteshopping, para o Nassica ou para a Póvoa de Varzim. Vila do Conde nunca teve uma rua essencialmente comercial, como a da Junqueira, na cidade que nos fica a Norte. O comércio, algo incaracterístico que ainda existe, está disseminado por várias zonas e, mesmo os estabelecimentos de restauração, ou estão estabelecidos nos seus lugares ou, os novos, optaram todos pelas zonas marítima e ribeirinha.
Gastaram-se lá cerca de 2,5 milhões de euros, no que transparece ser uma obsessão política. No estado em que o concelho está, carecido das principais infra-estruturas, tenho sérias dúvidas se foi uma boa aposta gastar semelhante montante naquilo que ameaça tornar-se um verdadeiro elefante branco. Oxalá me engane.
Dupont

por Alcazar, Dupond, Dupont e Haddock

<< Home