domingo, maio 08, 2005

Há 60 anos, a guerra de Alan

O Terceiro Reich caiu há 60 anos. Em vez das habituais resenhas históricas, optei por comemorar o evento escolhendo uma obra sobre a II Guerra Mundial. Ainda hesitei entre "Band of Brothers/Irmãos de Sangue", uma superior série de televisão, produzida pela dupla Tom Hanks/Steven Spielberg, mas a escolha acabou por recair numa obra de banda desenhada, "La Guerre d'Alan", de Emmanuel Guibert, iniciada no final da década de 90 e editada pela L'Association.


«Quand j’ai eu dix-huit ans, Uncle Sam m’a dit qu’il aimerait bien mettre un uniforme sur mon dos pour aller combattre un gars qui s’appelait Adolf. Ce que j’ai fait»
É este o leitmotiv do segundo volume desta série, da qual aguardo, ansiosamente, o terceiro tomo. Emmanuel Guibert conta-nos a história de um soldado americano, primeiro na recruta e, depois, em acção na própria Segunda Guerra Mundial, já perto do seu epílogo. O verdadeiro Alan existiu e chamava-se Alan Ingram Cope. Guibert travou amizade com este ex-combatente americano quando "il avait soixante-neuf ans et moi trente" e resolveu retratar a aventura dele no conflito mundial. Pelo que o autor conta, deve ter sido uma animação para ambos: "on a passé beaucoup de temps ensemble. Echangé des centaines de lettres et de coups de fil. On s'est abreuyé de livres, de dessins, de cassetes. ona jardiné. Cuisiné. Fait du vélo. Du piano. Les courses".
Ao longo da obra, acompanhamos os pensamentos de Alan, os seus comentários, as suas reflexões sobre o mundo que o rodeava, enquanto a sua unidade percorria caminhos e estradas da Normandia, da Alemanha e da Checoslováquia. Alan é um homem comum, sem os habituais estereótipos do herói-soldado. Aliás, esta história está nos antípodas da ficção made in Hollywood a que estamos habituados. Alan podia ser um qualquer de nós. E esse é a grande mestria de Guibert para cativar o leitor: o retrato daquela que podia ser a participação de um homem qualquer homem naquele conflito mundial. Porque o que temos é a vida do soldado comum, aquele que lutou na lama, que perdeu amigos, que chorou, com medo, na frente de batalha, que não tinha os super-poderes kryptonianos a que estamos habituados. Daí que Guibert não se esqueça do dia-a-dia, das pequenas anedotas e das historietas que qualquer pessoa tem para contar no fim de uma aventura.
O autor apresenta a obra não exactamente a preto e branco, mas recorrendo a vários tons de castanho, assim retirando um desnecessário hiperbolismo dramático. Pode ver-se exemplos do primeiro volume aqui e, do segundo, aqui.
A guerra de Alan terminou há seis décadas, mas é a mesma com que todos os homens se defrontaram desde que estalou o primeiro conflito, in illo tempore. Recordando e aconselhando "La Guerre d' Alan", mais do que assinalar o sexagésmo aniversário do fim do conflito, procuramos celebrar o soldado comum, sem nome, sem feitos heróicos, mas imprescindível no caminho para qualquer vitória militar.
Dupont