terça-feira, maio 10, 2005

«Jerusalém», de Gonçalo M. Tavares


«Jerusalém« é um romance negro, como parece avisar a côr da capa. Gonçalo M. Tavares convida-nos para um mergulho profundo na mente humana, no que ela tem de terrível. Boa parte da acção passa-se no hospício George Rosenberg, mas rapidamente concluímos que de um “lado” e do “outro”, nem tudo está bem, nem tudo está mal.
É nesse hospital que estão Ernst e Mylia. Que gostam um do outro, chegando ao ponto de ela engravidar. Só que ela era casada com o prestigiadíssimo médico e investigador Theodor Busbeck, descendente de uma família com pergaminhos científicos na área do estudo da mente. Kaas, filho da sua mulher, nasce deficiente, mas o médico aceita-o e trata-o como se o rebento fosse seu. O pai é uma figura distante, quase sempre ausente, que não tem qualquer problema em assumir que se excita com visitas a casas de prostituição. É à volta destas personagens, e mais algumas, que gira o argumento de “Jerusalém”.
Pelo meio, somos ainda confrontados com a tese de Busbeck, que pretende ser uma explicação de quase tudo, partindo do princípio de que tudo é previsível, tudo pode ser racionalizado. Faz lembrar, um pouco, as teorias do “devir histórico” e de um certo determinismo. Só que, no fim da obra, Gonçalo M. Tavares acaba por nos dizer que tudo isso está errado e que nada, mesmo nada é previsível.
Do meu ponto de vista, a centelha de genialidade do escritor reside, precisamente, no método que utiliza para nos provar, de forma tácita, que a verdade é, exactamente, o oposto.
Comecemos pelo óbvio: os vários capitulos não são apresentados pela ordem cronológica do desenrolar da acção. É que amente nem sempre arruma as coisas no seu devido lugar. Depois, os próprios nomes das personagens e dos lugares, todos germanófilos, provocam, imediatamente, uma certa distância para com o leitor que, estando a ler um autor português, vê-se confrontado com as cidades frias e impessoais do norte do Europa o que deixa o leitor um pouco perdido e desorientado, tal qual uma mente sem referências claras. Em terceiro lugar, atente-se nestas passagens:
28 de Maio, manhã: Kaas Busbeck, com os seus doze anos recentes dirige-se como habitualmente à sua escola, uma escola especial, extremamente cara, que o tem ajudado a melhorar a dicção e os movimentos da perna (pag. 209).
Agora, compare-se com:
28 de Maio, manhã: Kaas Busbeck, com os seus doze anos recentes dirige-se à sua escola, uma escola especial, extremamente cara, que o tem ajudado a melhorar a dicção e os movimentos da perna (pag. 219).
Quase idênticas, não é? Assim separadas e com esta formatação torna-se fácil identificar as diferenças. Mas quando se está a ler e a distância entre as passagens é de dez páginas, a reacção é que, quando se atinge a página 219, fica-se com a sensação de que já se leu aquilo algures e, portanto, deve haver um erro de impressão ou de revisão... Parte-se à procura e, comparando, detecta-se a subtileza que marca a diferença. Gonçalo M. Tavares consegue criar-nos esta estranheza, este déja vu, como que a alertar-nos de que a realidade não se repete, por muito idêntica que possa parecer.
Uma outra leitura, mais imediata, é a que se retira da comparação entre o comportamento daqueles que são considerados loucos e os ditos normais. O autor usa a imagem de uma caixa negra como metáfora desta relação: quem está lá dentro vê o que está dentro e o que está fora; mas, estes últimos, só vêem o que está fora. A acentuar a dicotomia, temos ainda o facto de os personagens que circulam livremente serem capazes de actos de violência e repulsa para com os seus semelhantes ( o pai do médico rejeita o neto adoptivo por causa da deficiência e aconselha o filho a fazer o mesmo para não lhe prejudicara carreira...), enquanto os loucos têm sentimentos e são capazes de sentir amor uns pelos outros ao ponto de criarem vida...
Onde é que está o Bem, onde é que está o Mal? Será que se equilibram e anulam? A morte do assassino de uma criança, em frente à mãe da vítima, que desconhece o facto, é determinada, é um mero acaso, ou é a vitória do Bem sobre o Mal?
«Jerusalém» é nome da cidade símbolo da encruzilhada de civilizações e das religiões. Aqui, é o símbolo dos caminhos obscuros que a mente humana pode percorrer. Como dizia Pierre de Montaigne há cinco séculos, “nada do que é humano me é estranho”.

O livro granjeou ao seu autor o prémio Ler/Millenium BCP e, se mais não fosse, já foi determinante para a revelação, em escala maior do que a do pequeno meio literário português, de um dos mais promissores escritores portugueses. Se tem “só” 34 anos e já assina obras com este fôlego, fico a aguardar, ansioso, por aquilo que no futuro nos irá trazer.
Dupont