terça-feira, maio 17, 2005

Las Vegas

Foi notícia nos principais semanários e edições dominicais dos diários: a cidade de Las Vegas celebrou o seu centésimo aniversário.


Estive lá em 1996 e, oito anos depois, ainda nem sei bem o que dizer... O primeiro impacto foi logo no aeroporto, onde vi as primeiras slot-machines. Depois, na chegada ao hotel, o hall estava completamente forrado de máquinas de jogo e só depois percebi que a distinção entre casino e hotel, pura e simplesmente, não existe.
Tinha agendado quatro dias na cidade. Contava ir ao Grand Canyon e sobrevoar o Lago Mead, o que fiz. Mas, de início, achei tudo divertido e arrependi-me de não ter marcado mais dias. Foi um lamento que, felizmente, durou pouco... É que a única coisa que me deu algum gozo fazer foi visitar hotéis da mesma forma que, numa cidade europeia, se visitam igrejas ou museus. Vai-se ao Luxor para ver o gigantesco átrio de entrada, ao MGM para se sentir esmagado pela magnitude daquilo tudo, ao Mirage para ver o vulcão de água, ao Treasure Island para assistir à luta entre corsários, ao Ceaser’s Palace para passear no centro comercial cujo tecto vai mimetizando o céu no exterior, enfim, cada hotel tem uma atracção e visitá-los resume-se a isso. Isto tudo no strip, a zona nova da cidade. Mas há que ver, também, a parte mais antiga, nomeadamente Freemont Street, com os casinos e as iluminações mais antiquadas (foi lá que os U2 gravaram o vídeo de ‘I still haven’t found what I’m looking for’) e onde o famoso cowboy de neon, Vegas Vic, continua a saudar-nos com o polegar levantado.
Esteticamente, a cidade é um enorme altar ao kitsch, ganhando contornos oníricos à noite, quando os neons irrompem na escuridão. E, depois, há todas aquelas loucuras que só os americanos levam a sério. Devido ao calor abrasador do deserto, que tudo queima, no hotel onde fiquei, por exemplo, a relva era ‘pintada’ de verde todos os dias, para manter o seu aspecto viçoso. E, nesse mesmo jardim, existia uma pequena piscina com pinguins. Para os desgraçados não morrerem de calor, tinham colocado uns vaporizadores de frio que lá conseguiam manter a temperatura...


O rótulo de “Sin City” não diz respeito apenas ao jogo. A prostituição marca presença bastante forte, na rua e no próprio interior dos casinos. Recordo-me de estar a passear no strip, de mão dada com a minha mulher, quando, para estupefacção nossa, um homem nos aborda e nos entrega um catálogo, a cores, com dezenas de “modelos” masculinos e femininos, à escolha...
Hoje, recordo Las Vegas quando a vejo no cinema e na televisão, especialmente na série “CSI”, e continuo a achá-la extraordinariamente fotogénica e completamente louca, mas também simbólica de todos pecados arrolados na nossa educação judaico-cristã. Até porque num país onde o puritanismo ganha força crescente, Las Vegas assume um papel paradoxal: por um lado, é, efectivamente, um verdadeiro depósito de hipocrisia, onde se vai fazer o inverso do que a pretensa Lei de Deus ordena; por outro lado, é um sólido bastião contra a essa crescente e perigosa ortodoxia religiosa.
Mas, para um europeu, Las Vegas sempre será o símbolo do american dream: há cem anos era areia do deserto; hoje é a cidade americana com maior crescimento. Na América, tudo é possível. Pelo menos, parece...
Nos quatro dias que lá passei, apenas joguei um “quarter”. Foi mesmo na despedida, só para não ter de dizer que não tinha arriscado mesmo nada. Porque eu não quero depositar na sorte ao jogo a responsabilidade de ser feliz.
Dupont