quinta-feira, maio 12, 2005

«Lucky Luke no Quebeque», de Achdé & Gerra


Morris, o pai de Lucky Luke deixou-nos em 2001. Workaholic incansável, desenhou quase até ao fim, quando o herói já celebrava o 55º aniversário da sua presença nos domínios da sétima arte. A série teve o seu ponto alto com a participação de Goscinny como argumentista, quando Morris já ia lançado no décimo álbum. Começando em 1947, já apareceram quase noventa álbuns mas, desde o desaparecimento do também argumentista de ‘Astérix’, nunca mais teve a qualidade, o humor e a frescura desses tempos.
«Lucky Luke» sempre foi uma série muito popular no universo da BD franco-belga. O imaginário era apelativo, o humor era enorme, fazia referência à iconografia do Oeste, especialmente dos westerns de Hollywood, muito famosos nas décadas de 60 e 70. Mesmo em Portugal, marcou inúmeras gerações que ainda a vêm como uma referência da juventude. Só que, nos últimos tempos, era verdadeiramente confrangedor ver a agonia criativa da série, tal era a infantilidade e a mediocridade dos trabalhos apresentados.
Agora, a ASA apresenta-nos «Lucky Luke no Quebeque», em que o desenho é da autoria de Achdé e o argumento pertence a Laurent Gerra. E pode dizer-se que a série ganhou novo fôlego. Ainda estará longe da idade de ouro, mas o humor está de volta, aliado a algumas inovações gráficas. A história é simples: Lucky Luke vai até ao Canadá para que Jolly Jumper se encontre com a Província, uma bela égua por quem se havia apaixonado... O recurso ao duplo sentido, tão característico em Goscinny, tem presença assegurada, a começar no título original: “La Belle Province”, referência à tal égua, mas também ao território do Quebeque... Depois, é uma festim de referências: é a região francófona remota do Canadá que resiste, “ainda e sempre”, à invasão da língua inglesa; é a cantora Céline que canta tão mal que faz chover e que desaparecerá, misteriosamente, num famoso naufrágio ocorrido no Atlântico em 1912; é Livingstone, um chefe da Polícia-Montada, que se dirige ao nosso herói perguntando “Lucky Luke, I presume”; um empregado de uma mansão chamado Nestor; um barbeiro denominado “Casa de Sevilha”; um vendedor de roupa para mineiros de seu nome Levi Strauss; uma loja intitulada “Centro Leclerc”; um agricultor chamado Joshua Bové que se manifesta contra cadeias de pronto-a-comer, etc, etc.
Certos de que eram os titulares de uma herança rica e variada, os autores optaram, e bem, por homenagearem o passado e indiciar algumas pistas para o futuro. Assim, através de um “Museu do Oeste”, conseguem relembram alguns dos personagens que ajudaram a construir a imagem da série, para, ao mesmo tempo, mostrarem algum arrojo ao optarem por vinhetas grandes e pontos de vista inusitados, marcando a diferença para com o traço de Morris. Os diálogos também tiveram algumas modificações, desde logo o facto de serem mais extensos.
«Lucky Luke» está de volta? Só o tempo o dirá, mas a amostra é prometedora.
Dupont