quinta-feira, maio 05, 2005

Tony’s carreira


Desde que aterrou em Downing Street, Tony Blair nunca mais parou, num redemoinho de sorrisos, guerras, lutas internas e externas, sem esquecer o recém-nascido aliado filial que o ajudou nas últimas eleições...
Desde então, muita coisa mudou, a começar pela transbordante energia de “smiling Tony”, mais próxima de um pastor evangélico ou de um vendedor de carros, que dá claros sinais de esgotamento. Não espanta, por isso, o facto de todos esperarem que este seja o seu último mandato. O líder dos Trabalhistas pode ter muitos defeitos, mas há uma coisa de que ninguém o pode acusar: com ele, a Inglaterra tornou-se mais rica e poderosa, atingindo o melhor nível económico desde o pós-guerra.
Prova disso é a lista dos mais ricos de Inglaterra, anualmente apresentada pelo Sunday Times, e que prova não só como há cada vez mais ricos, como comprova que muitas fortunas europeias estão, agora, baseadas em Londres. Aliás, do rol dos maiores magnatas, de que Roman “Chelsea” Abramovich será o mais mediático, nenhum é britânico. Hoje, Londres é a melhor plataforma que a Europa tem para o comércio global e, na velha senda do “follow the money”, os empresários aterram em Londres e por lá se estabelecem. É que, olhando para os indicadores económicos, nada poderia ser melhor: a taxa de desemprego baixou de quase 8% para 4%; a produtividade tem crescido a um ritmo maior do que o da Europa, o mesmo acontecendo ao crescimento do PIB.


No “Público”, de Domingo, Teresa de Sousa identificava o verdadeiro culpado: Gordon Brown, Chanceler do Tesouro, que geriu as finanças “com a sua célebre regra de ouro – o défice apenas pode ser justificado pelo investimento e a dívida tem de estar abaixo dos 40% do PIB”. Muito boa gente, mesmo dentro dos ‘tories, está certa que será ele o sucessor do actual Primeiro-Ministro, o que já terá sido acertado há bastante tempo, mais propriamente em 1994, no restaurante Granita, situado no boémio bairro londrino de Islington, como referia o El Pais, no passado Domingo. Segundo uma sondagem do The Independent, saída há cerca de 15 dias, 32% dos eleitores confiam em Blair, 28% em Michael Howard e 50% em... Gordon Brown. O prestígio deste último é tal que Blair, durante a campanha, se escudou atrás da credibilidade do seu chanceler do Tesouro, para fugir aos ataques sobre o envolvimento do país na guerra do Iraque.
Pois… A Guerra do Iraque... A grande pedra no sapato do Primeiro-Ministro nesta eleição. É que, ao contrário de George W. Bush, Tony Blair abriu completamente o jogo, explicando e repisando a tudo e a todos a necessidade imperiosa de atacar o Iraque, invocando a necessidade de protecção da Grã-Bretanha. Esta exposição valeu-lhe, mais tarde, a acusação de que usou a arma suicida do político: a mentira. Ainda no passado Domingo, nas suas páginas centrais, o "Sunday Times" berrava “Blair planeou a guerra com o Iraque desde o princípio”. A oposição, especialmente a trabalhista, nem hesitou: colocou cartazes com a frase “se ele está disposto a mentir para irmos para a guerra, também está disposto a mentir para ganhar eleições”. Ouch!, que deve ter doído...


Hoje, mesmo os trabalhistas têm imensa dificuldade em defender Blair nesta matéria. Neil Kinnock, o antígo líder do partido, em entrevista ao El Pais, declarou que o Primeiro-Ministro “gera respeito, mas não confiança”. O ex-comissário europeu chega a admitir que a mais valia que Blair traz ao partido é a inteligência, “só que, hoje, a sua inteligência provoca desconfiança”. Já o ex-minstro trabalhista Roy Hattersley acha que o problema tem outro enquadramento. Num belíssimo artigo assinado por um dos mais conceituados jornalistas britânicos, John Carlin, do The Observer, Hattersley defende que o Primeiro-Ministro não mentiu: “não é que ele não acredite no que diz; o problema é que ele se engana naquilo em que acredita”. Daí a sua conclusão: “Blair tem excesso de convicção”. Talvez tenha a ver com o facto de ele, à semelhança de Bush, ter um grande fervor religioso...
Aliás, ficou famosa aquela sua entrevista, em 1996, quando confessou que sentia fascínio por Pôncio Pilatos, “o arquétipo do político, preso no eterno dilema: a luta entre o bem e o oportunismo”. Porventura, Blair teve um conflito semelhante quando decidiu entrar na guerra, virando as costas à França, abraçando o “amigo americano” e fazendo ressurgir fantasmas do passado. Para Teresa de Sousa, Blair falhou precisamente na questão de “convencer os britânicos de que o lugar do seu país é na Europa – não algures entre as duas margens de um oceano que parece continuar a ser, para uma larga maioria, mais estreito que o Canal da Mancha”.
O seu legado, além da economia, traduz-se numa tentativa de revitalizar os sistemas de ensino e de saúde. Os milhões de libras já dispendidas melhoraram alguma coisa, mais dos cuidados de Saúde, mas ainda se está longe do aceitável. No ensino, que já abordámos aqui há uns meses, a situação não está famosa. O que vale é que como o povo gosta de pão e circo, isso há em fartura!
Finalmente, Tony Blair tem a estrelinha dos campeões: os seus adversários não constituem oposição sólida. Os conservadores, sempre acusadores do laxismo na imigração e nos pedidos de asilo viram-se confrontados com um lei de Blair, saída há pouco, bem mais apertada do que a anterior. Retirou-lhes, assim, uma das suas principais bandeiras. Depois, os liberais democratas, que ocupam o espaço político entre os trabalhistas e os conservadores, viram-se impedidos de acusar Blair de ser anti-Europa ou pró-Europa, porque as suas posições serviam ambas as partes… Em suma, Blair irá ganhar, mas poderá receber um aviso para que modere não só a arrogância do seu partido como também comece a olhar mais para as necessidades que os britânicos pretendem ver satisfeitas.
Dupont