quarta-feira, maio 04, 2005

Um problema de peso


A Espanha descobriu que tem as crianças mais obesas da Europa Continental. Na verdade, só perde para Malta. O problema, como referia o El Pais, resume-se à fórmula “Bolos+Playstation”.
Hoje, 33 por cento dos miúdos espanhóis, entre os sete e o onze anos, é obeso. Há vinte anos, a percentagem era de ...um por cento. Segundo Basilio Moreno, o presidente da Sociedade Espanhola para o Estudo da Obesidade, a mudança de hábitos foi fatal: “dantes ia-se e vinha-se da escola a pé, jogava-se futebol na rua ou na praça, comia-se uma sandwich e bebia-se água. Hoje, as crianças deliciam-se com sumos adocicados, bolos açucarados e, quanto a jogos, quase só dá Playstation...” O pior é quando não é a consola a ocupar o écran de televisão, são os canais para jovens, em que a publicidade se resume a uma dieta de refrigerantes, snacks e fast-food – tudo hipercalórico.
O problema, em Portugal, não deve ser muito diferente. Pelos contactos de família, constato que os miúdos adoram, efectivamente, o binómio jogo vídeo/computador. Refrigerantes em lata, pacotes de batatas fritas, bolicaos com chocolate, entre outros snacks, são o lanche que levam para a escola. À mesa, em vez de água, querem sumo, Os pratos cozidos e, até, os grelhados são recusados. Molhos em quantidades industriais são indispensáveis. E o que é isso de ir ao cinema e estar ali sentado durante duas horas sem um jarro de Coca-Cola e uma saco gigante de pipocas?
A culpa é de todos, como é óbvio. Os pais preparam pequenos-almoços a correr e é bem mais prático quando apenas se tem de enfiar na mochila dois ou três produtos pré-preparados. Depois, os miúdos passam quase todo o dia sozinhos. Para se “penitenciarem”, os pais deixam-lhes semanadas que acabam por encher os cofres de pasteleiros e supermercados. À noite, esgotados, sem tempo ou paciência para prepararem uma refeição decente, refugiam-se nos pré-congelados, desde pizzas a hamburgers, passando por carne panada ou spaghetti no micro-ondas...
Voltando a Espanha, há colégios que se lançam em iniciativas pioneiras de sensibilização, como “a semana da maçã”, “não vamos comer fritos” ou “acabaram os aperitivos industriais”. A jornalista do diário espanhol pergunta à directora de um desses colégios sobre a eficácia dessas acções: “Me temo que ninguna...”
A sociedade de consumo e da abundância em que vivemos tem, por vezes, efeitos perversos, como estes. No futuro, muitos destes jovens não conseguirão escapar a problemas cardio-vasculares, agravando ainda mais as despesas de saúde e as contas da Segurança Social.
Dupont

ADITAMENTO: nem de propósito, o Público apresenta hoje uma notícia sobre o mesmo tema, que pode ser lida aqui.