Em clara crise de inspiração, Hollywood mergulha no mundo da banda desenhada norte-americana, designada, na Europa, pelo nome genérico de comics. Há umas semanas apareceu “Cidade do Pecado”, baseado na graphic novel de Frank Miller, que co-assina a realização. Agora, das profundezas da caverna dos morcegos, reemerge “Batman”, o Cavaleiro Negro que Bob Kane criou há já algumas décadas. Muito proximamente aparecerá a versão cinematográfica de “O Quarteto Fantástico”, mais um episódio dos “X-Men” e o muito aguardado “Super-Homem”. Resolvi juntar estes dois filmes num único texto, não apenas porque por terem a sua génese na BD, mas porque em ambos o lado negro da alma marca presença. 
Em “
Sin City” temos uma cidade onde os heróis são marginais sádicos, prostitutas com sentido de moral, violência, sexo, e muito
gore. A história subdivide-se em três sub-histórias autónomas com alguns pontos de contacto, correspondendo a três volumes da série “Mulher Fatal”, “A Grande Matança” e “Aquele Sacana Amarelo”, todos já editados, entre nós, pela Devir. A série apareceu em 1991, saída da pena de Frank Miller, rapidamente se tornando em objecto de culto. Contrastando com o universo colorido e moralmente estável dos super-heróis, “Sin City” mostra histórias onde o bem e o mal não são apresentados de forma clara, quer nas motivações, quer na própria concepção das personagens. O ambiente é pesado, próximo de um
film noir com tons sádicos e violentos. A alicerçar a diferença para com o
mainstream, Miller optou pelo preto-e-branco puro, sem concessões, sequer, ao cinzento… O traço sai duro e cru, tal qual as personagens.
A versão para cinema tentou capturar o ambiente, algo que, em parte, até foi conseguido. À chamada para interpretar os principais canastrões apareceram Mickey Rourke e Bruce Willis, em duas composições brilhantes, especialmente a do primeiro. As mulheres são perfeitas, nas formas e na beleza, com destaque para a sensualíssima Jessica Alba, que voltará, este Verão, aos écrans no já mencionado “Fantastic Four”. O ambiente, ainda mais do que na BD, é claramente inspirado no
film noir dos anos 40 e 50. O filme segue quase à risca (diálogos incluídos!) os livros, mas isso fica a dever-se ao facto do próprio Frank Miller participar não só na realização como também no argumento. Visualmente, o filme é espectacular, com cenários fantásticos e movimentos de câmara fabulosos. Robert Rodriguez continua fascinado por uma certa estética de violência e estou em crer que, se lhe tivessem dado rédea solta, teria estragado o filme com os habituais bailados de tiroteios e virtuosismos técnicos perfeitamente desnecessários. Não será pecado deixar de ver “Sin City”, mas, dentro do género constitui uma boa solução entre a versão em papel e a de celulóide.

“
Batman – O Início” é um filme onde o título diz tudo. Depois dos dois fabulosos episódios inciais, assinados por Tim Burton, as duas entregas seguintes revelaram se- completamente desastradas, muito por culpa do realizador Joel Schumacher, que transformou as personagens, retirando-lhes qualquer profundidade e deixando-se iludir pelos efeitos especiais que tinha ao seu dispor. Desta vez, com Christopher Nolan ao volante, a saga do “Dark Knight” volta a levantar-se. Para isso, optou-se por voltar a contar a história desde o início. Desse modo, voltámos a assistir à ligação de Bruce Wayne com os morcegos e o episódio traumático que foi o assassinato dos seus pais. Em “Batman – O Início” vemos com ele parte para o Oriente, mais exactamente para o Tibete, onde, numa escola com reminiscências budistas, é educado no sentido de combater os seus medos e controlar as suas emoções, além de aprender artes marciais. Zangado com o seu Mestre, pois não concorda com o seu projecto de eliminar o mal do Mundo, Wayne foge, regressa a Gotham e cria “Batman”.
O Homem-Morcego é, provavelmente, uma das mais fascinantes personagens dos comics norte-americanos. Desde logo, porque não tem super-poderes. É apenas um homem, com capacidades físicas desenvolvidos e cuja enorme fortuna lhe permite dispor de uma série de
gadgets que o ajudam na luta contra o crime. Mas, ao mesmo tempo, Bruce Wayne é uma personagem que luta contra o seu complexo de culpa, que carrega muita da culpa do Mundo às costas e que parte para a luta na vã esperança de redenção. E esse definição da personagem passa muito bem em “Batman Returns”, especialmente na interpretação de Christian Bale. Aliás, o actor já tem um certo
curriculum neste tipo de personagens, basta lembrar “O Império do Sol” ou “American Psycho”.
Mas não se pode esquecer o trabalho, sensível e cuidado, do realizador Christopher Nolan, que havia assinado filmes complexos como “Insomnia” e, especialmente, esse magnífico labirinto mental que dá pelo nome de “Memento”. Aliás, o melhor desta onda de cinema-BD tem beneficiado imenso por estar a ser entregue a realizadores que pouco ou nada tem a ver com o cinema espectáculo: os dois “Homem-Aranha” foram entregues a Sam Raimi que vinha do cinema de terror de baixo orçamento e Ang Lee realizou “Hulk” depois de ter dirigido “Tempestade de Gelo”, “Sense and Sensibility” e “O Tigre e o Dragão”. Desta forma, estes realizadores deslocaram a perspectiva dos filmes que estaria, presumivelmente, localizada nos feitos dos super-heróis e centrou a acção em torno das suas identidades secretas, confrontadas com dramas interiores e, para quem, os poderes acabam por ser não um dom, mas um verdadeiro pesadelo, dando às personagens uma dimensão interior pouco comum e apresentando filmes bastante acima do nível médio das produções de Hollywood.

Infelizmente, “Batman – O Início” não consegue chegar sequer perto das obras-primas de Tim Burton. A fabulosa Gotham City de “Batman Regressa”, claramente inspirada na arquitectura nacional-socialista, desapareceu. Aqui, a inspiração está mais próxima de Blade Runner. Aliás, numa cena em que Batman ataca um polícia corrupto, pendurando-o pelos pés, tudo lembra uma cena semelhante do filme de Ridley Scott: as casas, a barraquinha de comida, a iluminação e os planos de câmara picados. Antes assim do que desatar a inventar parvoíces… Outra falha que se regista é a inesquecível banda sonora de Danny Elfman, aqui entregue a James Newton Howard e ao “Miami Vice” Hans Zimmer. No geral, que saudades do delírio visual e estético de Tim Burton, das suas personagens loucas, das suas referências cruzadas com outros “mundos”, desde a pintura à religião. O próximo episódio parece que terá o Joker como antagonista de Batman. Sempre quero ver quem é que se arrisca a ver-se confrontado com a loucura cabotina de Jack Nicholson. De qualquer forma, Chris Nolan merece um enorme aplauso por ressuscitar Batman e, principalmente, por lhe voltar a dar a dignidade perdida. Como curiosidade, para quem ainda não foi ver o filme, aqui fica um desafio interessante: descobrir qual o antigo líder de um banda de grande sucesso que faz uma “perninha” como actor, na pele de um prisioneiro. Esperei pelos créditos finais para confirmar e era mesmo ele…E não vale andar a procurar na net, pois perde a piada...

A terminar, deixo aqui um desenho original do Batman, feito por um dos seus principais desenhadores actuais, Liam Sharp, no Salão BD da Amadora, há cinco anos. Não está à venda…
Dupont