«Bullying»
Celebra-se, hoje, o Dia Mundial da Criança. Nunca, como agora, se ouviu falar dos problemas dos mais jovens. Mas normalmente, o assunto gira À volta dos comportamentos dos adultos para com as crianças. E entre elas, o que é que se passa? Em Espanha, discute-se a emergência de um novo problema: o «assédio escolar» ou «bullying».

“Mariquinhas”, “gordo”, “cabeçudo”, “caixa de óculos”, “cabeça-de-burro”... Quem não se lembra de chamar estes, ou outros, nomes aos colegas de escola e do ‘ciclo’?
Pois o que parecia uma brincadeira de crianças parece estar a tornar-se num caso sério de desvio comportamental. Em Espanha, segundo o El Pais, o caso já assume foros de preocupação social, após o registo de dois suicídios, em menos de seis meses, relacionados com “assédio escolar”. Ambos os jovens, um de 24 e uma de 16, resolveram pôr fim à vida por não aguentarem mais a chacota dos amigos. O caso não será uma epidemia, mas há muitos mais casos do que aqueles que se pensam, refere Rosário Ortega, catedrática em Psicologia Comportamental.
Para se ter uma ideia, o gabinete do Defensor do Menor de Madrid recebeu, em 2003, 15 queixas de assédio escolar, que subiram para 42 no ano seguinte. E no Telefone do Menor, as chamadas de pedidos de ajuda tiveram uma subida de 9% no último trimestre de 2004.
As autoridades já elaboraram um estudo, em que se analisa os comportamentos das vítimas e dos agressores. Assim, as cinco maiores queixas são: 1) Insulto; 2) Difamação; 3) Pôr alcunhas; 4) Esconder objectos; e 5) Ignorância e abandono. Já os agressores confessam praticar esses comportamentos, com a única diferença de colocarem o abandono e a ignorância em terceiro lugar. De referir que a situação abrange entre 8 e 10% da população estudantil, entre os 11 e os 15 anos e é em quase tudo idêntica para os rapazes e para as raparigas. As vítimas pertencem, normalmente, a grupos étnicos, ou são incapacitados, sem esquecer os que não tenham um look adequado. Pelo seu lado, os agressores são socialmente integrados, muitas vezes de famílias com posses, mas também se verificam casos de famílias onde a violência doméstica abunda.
Mas afinal, o que é isso de assédio? “Trata-se de um jogo perverso de domínio de uns companheiros sobre os outros”, refere Javier Urra, do Ministério Público de Madrid. Ou seja, não são as lutas e os despiques ocasionais, mas uma atitude contínua. A causa primeira para tudo isto não existe, mas há quem defenda que se trata de um reflexo da incoerência da sociedade perante a violência, já que, por um lado, não dá atenção aos problemas dos menores, e, por outro, permite-lhes o contacto com situações violentas em filmes e videojogos.
Parece óbvio que esta situação se põe numa idade crítica, de clara transição entre comportamentos infantis e outros já adolescentes. A personalidade começa a tomar forma, a necessidade de impor a vontade também e os problemas aparecem.
Os psicólogos espanhóis ouvidos pelo El Pais defendem que a escola deve mimetizar um Estado de Direito, onde o prevaricador é punido e a vítima protegida. Ora, bem sabemos que as coisas não são nada assim. Lembro-me perfeitamente da primeira vez que a minha filha, no último ano da infantil, chegou a casa e disse que um colega lhe havia batido. Perguntei-lhe o que é que ela tinha feito em resposta. “Nada. Fui dizer à educadora”, respondeu. A minha mulher aplaudiu, mas eu não. E disse-lhe uma coisa que me parece elementar e que sempre deu resultado comigo. “Se ele te deu um pontapé devias ter era dado outro”. A minha ideia, em que ainda acredito, era a de equilíbrio de forças e de dar auto-confiança à miúda para situações análogas. Bem sabia que não estava correcto, mas a selva do recreio tem regras que os educadores parece terem esquecido desde o tempo em que eram estudantes…Ah, nunca mais ouvi falar de semelhantes queixas. Porque, se ela fizesse o que o “Estado de Direito” diz para fazer, o resultado é que ela se iria transformar numa “queixinhas”, alvo predilecto do tal assédio escolar…

O meu exemplo nem sequer se aproxima dos espanhóis, acima referidos. Mas a verdade é que vejo cada vez mais miúdos hiper-protegidos, para os quais a solução dos seus problemas passa, sempre, pelo recurso a um adulto. E falo por mim: eu jogava futebol na rua, ia para as bouças, nadava num ribeiro perto de casa dos meus pais e julgo que nunca lhes causei preocupação. Agora, um filho meu fazer isso? Só por cima do meu cadáver! Outro exemplo: uma vez, em conversa com o CAA, ouvi-o desabafar sobre o facto de, com 11, 12 e 13 anos, ter ido sozinho, às Antas, ver futebol. Algo que, hoje em dia, é quase impensável. É verdade. Os miúdos estão superprotegidos. Mas a sensação com que fico é que essa protecção é, muitas vezes, para descanso dos pais e não para a estrita segurança das crianças. Veja-se que nos casos mencionados pelo El Pais, a coisa que os psicólogos mais repetem é que é necessário ouvir as crianças. É fundamental que elas se apercebam que têm alguém que não as deixa ir para a rua, mas que ouve as suas queixas e os seus problemas. Ora, quando não têm nada disto, quando os colegas as gozam e não reagem e quando os pais as proíbem e não as ouvem, o que é que pode acontecer? “Buscan la misma saída: se lanzan en el vacío”…
Dupont

por Alcazar, Dupond, Dupont e Haddock

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