segunda-feira, julho 04, 2005

A imortalidade

Era uma vez...
Era uma vez um miúdo e um avô. Vá lá saber-se porquê, mas desde sempre houve uma especial empatia entre eles, sendo que o avô era seu padrinho de baptismo e havia sido seu professor na escola primária.
A preocupação do avô era a educação e a formação do neto. À noite, ainda ele era pequeno, o avô levava-o ao quarto, subindo os dois vãos de escada lá de casa, contando os degraus “1, 2, 3, 4... 21!”. Nas noites limpas de Verão, iam até ao quintal e o avô ensinava-lhe a orientar-se através do mapa das estrelas. Já com meia-dúzia de anos, o neto foi levado a descobrir as maravilhas que, alguém, numa sala escura, projectava num écran branco. Com o avô descobriu o prazer da leitura e da escrita, aguçado pela vigilância apertada na escola onde um foi aluno do outro. Em casa, o neto ia-se divertindo com as fotografias de castelos, de rios, de praças e de ruas de Portugal, que juntos tinham visitado ou “haveriam de lá ir”. Os estudos do neto continuaram num colégio interno e, durante sete anos, a cada sexta-feira, lá ia o avô cumprir a sua função libertadora... Os anos passaram e o miúdo foi crescendo. Entrou na Faculdade, licenciou-se, casou e teve filhas.E o avô esteve sempre presente. No fim do mês de Abril, o avô adoeceu e, no início de Maio, Deus chamou-o à sua presença.
No Natal passado, entusiasmado, o neto levara as suas filhas ao cinema, pela primeira vez - até tirou fotografias dentro da sala. De há uns tempos a esta parte, passou a levar as miúdas à cama, contabilizando cada degrau que ia sendo derrotado: “1, 2, 3, 4...”. E, poucos dias antes do adeus definitivo, o neto contou ao avô que aproveitara uma ida a Guimarães para levar as filhas a passear pelo castelo “do príncipe e da princesa”. Ele sorriu e sentenciou: “faz com elas o que eu fiz contigo”. E o neto percebeu, finalmente, que o avô poderia partir em paz, porque o seu espírito há muito habitava em si. E começava a viver, também, nas suas filhas.
15 de Maio de 2003
Pedro Brás Marques (em Impressões Digitais)

General Alcazar ( com vénia ao autor, pela belíssima impressão digital, que me lembra um outro avô, se Deus quiser, imortal).