Depois de
aqui termos abordado a apresentação de “Longe de Manaus”, chegou a altura de falarmos do livro, no momento em que Francisco José Viegas pôs fim a um dos melhores blogues nacionais, o
Aviz.
Tal como em outros policiais de Francisco José Viegas, a personagem principal é Jaime Ramos, o inspector da Polícia Judiciária do Porto, desta vez secundado não por Filipe Castanheira, mas sim por Isaltino de Jesus, um filho dos subúrbios do Porto. Aliás, a acção inicia-se com a procura de identidade de um corpo encontrado num apartamento próximo da rotunda de Santo Ovídeo. É o primeiro de uma série de assassinatos interligados a um passado comum que Jaime Ramos irá desvendar, entre a memória de África e uma viagem ao Brasil, mais propriamente a Manaus.
Ao contrário dos policiais clássicos, em que a acção se pauta, quase sempre, pela lógica "
whoddunit?", Francisco José Viegas opta por massajar a vertente psicológica das personagens principais, com destaque, claro, para Jaime Ramos. Há quem defenda que se trata do seu alter-ego. Não conheço o Francisco para o poder confirmar, mas há elementos bastantes para, pelo menos, encontrar algumas simetrias. Desde logo a abençoada preferência clubística, passando, ainda, pela maneira de vestir
casual (o ultra-clássico
blaser de bombazina - Pag 54), e, claro está, por uma visão da vida algo melancólica, independente e extremamente racional.
Um escritor e um detective partilham uma certa inclinação para a psicanálise, no sentido de que ambos se socorrem de elementos objectivos para conseguirem construir toda a riqueza subjectiva das personagens. Em “Longe de Manaus”, tal como já acontecia em anteriores aventuras de Jaime Ramos, ficámos a conhecer quase tão bem o sujeito como o objecto da investigação, o que nos faz partilhar, ainda mais, a viagem com o protagonista. Veja-se, a título de mero exemplo, a descrição da “estagiária de advocacia”, na pág 163.
Por outro lado, a confirmar tal tese, temos que as reflexões e os desabafos de Jaime Ramos são gémeos daqueles que ouvimos ao Francisco, ao longo dos anos, nas conferências, nos seus programas de televisão e nos textos que connosco foi partilhando. O desabafo de um Portugal sujo e caótico, cheio de lugares-comuns, como o que se encontra, por exemplo, na página 41, prova bem isso. Mas é também aqui que o autor demonstra um sentido de humor e um
fair-play notáveis, ao reconhecer que ele próprio, Jaime Ramos, também padece desses males (Pag 46), como qualquer português:
JR “(…) A mulher de trinta anos de Balzac teria hoje quarenta (…)”
Rosa- “Quando é que leste Balzac?”
JR –“Nunca li, mas toda a gente sabe como é”…
No mesmo sentido, somo por vezes derrotados por um manancial de citações que nos levam a chegar mais perto da conclusão que talvez seja mesmo verdade a tal tese do
alter-ego. Tome-se, por exemplo, o descrito nas páginas 106 e 107, um verdadeiro guia para a visita ideal (de quem?...) a Veneza, Florença e Paris, em que o Francisco nos deslumbra com referências gastronómicas a cinematográficas, passando por monumentos, museus, cheiros e recantos. Aliás, o autor deixa escapar inúmeras vezes a sua faceta de
gourmet (e
gourmand…), chegando a partilhar uma receita culinária com os leitores! (Arroz de bacalhau, pag 198)

O Francisco, todos o sabemos, é um apaixonado pelo Brasil. Em «Longe de Manaus» não é apenas o país-continente que serve de cenário à intriga. O autor vai bem mais longe, conseguindo através da escrita o que a realidade dificilmente lhe proporcionaria (e que ele, estamos em crer, também não quereria…): ser brasileiro. Na verdade, durante os capítulos em que a acção decorre exclusivamente no Brasil e tudo se passa entre personagens locais, o narrador veste a pele de um escriba local, com todas as mudanças formais daí decorrentes. E a escolha de Manaus como um dos locais da intriga não terá sido fortuita. Esta cidade, construída no centro da selva, filha da loucura dos homens, desde a sua fundação até Herzog, é a metáfora perfeita para aqueles comportamentos que rasgam o quotidiano de cada um e ali ficam como marca indelével de um momento que podia ter sido extraordinário, mas que acabou em desgraça. Um pouco como a motivação de um criminoso ocasional, um ser ordinário, com uma vida ordinária, mas que um acontecimento invulgar, como a ressurreição da memória de um passado julgado esquecido, pode provocar comportamentos extraordinários. Manaus chegou para simbolizar a vitória do homem perante a Natureza, um propósito que, logo à partida, assim lá estivessem mentes atentas, era condição de uma existência dramática.
Já próximo do final, mais exactamente no capítulo 72, Jaime Ramos tem um longo desabafo para com Isaltino, sobre o sentido da sua vida, sobre o sentido da Vida. São três belíssimas páginas que merecem ser lidas em voz alta. Foi o que fiz, à minha mulher. Estávamos na praia e só quando terminei é que me apercebi que as pessoas que nos rodeavam haviam ficado igualmente maravilhadas… Um excerto:
(…) Também nunca te falei dos meus demónios. Os homens duros não são sempre
duros. Há um momento de repouso tal como existe a melancolia a meio da batalha. Um momento de perdição tal como existe a crueldade do tempo que passa por nós e nos deixa velhos, cada vez mais velhos (…)
Numa apreciação mais geral, há uma faceta do Francisco que me apraz particularmente. Ele fala da Rotunda de Santo Ovídeo e do Rio de Janeiro, de Angola e de Amarante, de autores, escritores, pintores e cineastas, de lugares e de pessoas com a naturalidade de quem os conhece e nunca com o reverência ou, pior, com a snobeira com que a maior parte dos nossos escritores nos brindam. Para Francisco José Viegas, cidadão do Mundo, todos os lugares são igualmente dignos.
Para quem nunca foi muito amante de policiais, este é o segundo Verão onde repito o tema. O ano passado foi a descoberta de Robert Wilson, primeiro com “O Cego de Sevilha” e, depois, com “Último Acto em Lisboa” e “Companhia de Estranhos”. Este ano aconteceu a confirmação de Jaime Ram…, desculpem, de Francisco José Viegas.
Dupont