“Vertigo/A Mulher que Viveu Duas Vezes”, de Alfred Hitchcock

“Vertigo”, terceira entrega da "Colecção Hitchcock" do Público, é, porventura, o filme mais complexo de toda a obra do realizador. O enredo, por si, já não era fácil, mas Alfred Hitchcock soube dar às personagens uma profundidade psicológica que ainda hoje é rara ver num filme.
Scottie (James Stewart) é um polícia de São Francisco que se vê atirado para a reforma, uma vez que tem medo das alturas. Um seu amigo, o armador Gavin (Tom Helmore) contrata-o, então, para que siga a sua mulher, Madeleine (Kim Novak), uma vez que desconfia do comportamento dela. Numa das suas perseguições, Scottie acaba por salvar Madeleine de uma tentativa de suicídio, quando ela se atira para as águas da Baía de S.Francisco, mesmo junto à ponte Golden Gate. A partir dali os encontros sucedem-se. Um dia, no edifício de uma missão católica, Madeleine sobe ao campanário e atira-se de lá abaixo. Scottie fica transtornado e acaba hospitalizado. Depois de sair, encontra uma mulher, Judy, que lhe faz lembrar Madeleine. Com o passar do tempo, Scottie tenta que Judy se transforme, fisicamente, em Madeleine. A verdade é que ambas são a mesma pessoa. Tudo não passara de uma encenação de Gavin para poder matar a mulher, atirando-a do cimo do campanário. E é lá que Judy/Madeleine lhe revela a verdade, mesmo antes da catástrofe final…
Como se pode ver neste resumo, a história é difícil de resumir. “Vertigo” é, com efeito um filme denso e profundo como poucos. Desde logo, temos dúvidas em “catalogá-lo”. Será que é um filme de amor, um policial ou um fita de mistério? É que Hitchcock, superiormente, cruza os três géneros e oferece ao espectador um opíparo festival de arte cinematográfica.
O jogo de duplos, característica inconfundível do realizador, atinge aqui o seu máximo expoente. Veja-se que Scottie começa por se apaixonar por Madeleine que, na realidade, não o era e que nada sentia por ele. Depois, conhece Judy, que se apaixona por ele, mas que Scottie tenta transformar na mulher amada, Madeleine. Aliás, a cena da transformação, física, de Judy em Madeleine é, porventura, o momento mais intenso do filme. Não só porque a carga emocional das personagens, fechadas num quarto de hotel, aproxima-se do insuportável, como também, num dado momento temporal, há uma convergência real de todas as perspectivas da história.
A evolução da personagem interpretada por Jimmy Stewart é uma dos pontos fortes de “Vertigo”, a que não é alheio o irrepreensível desempenho do actor. Nunca, como aqui, a morte e o amor andam de mãos tão firmemente dadas. Logo no início, quando Scottie cai de cima do prédio, morre uma vez; quando “perde” a mulher amada, Madeleine, morre segunda vez; e, no final, quando encontra e logo perde Judy/Madeleine, desta vez de forma definitiva, é todo o seu mundo que desaba. “Vertigo” ou “Vertigem” não é só o sentido de desorientação da personagem, mas especialmente o torvelinho para onde as suas opções o vão, sucessivamente, atirando.
Em “A Mulher que Viveu Duas Vezes”, Hitchcock apresenta, igualmente, um compêndio de todas as suas características. Podemos começar com a habitual e sensualíssima loira, aqui interpretada por Kim Novak; podemos falar na imagem, recorrente, de quedas no abismo; e temos o enquadramento psicológico das personagens, num enquadramento e com uma profundidade tal, que qualquer psicólogo não desdenharia analisar este extraordinário mergulho no inconsciente; e, claro, jamais nos podemos esquecer dos simbolismos – aqui, Hitchcock recorre à enciclopédia: a queda/morte; a torre/símbolo fálico; o amor perfeito/eternidade, e muitos mais encontraríamos. É nesta riqueza interpretativa que o filme ganha dimensão, ao ir buscar étimos da natureza humana, assim prendendo o espectador.

Talvez por isso, quando fui a S. Francisco, fiz questão em tirar uma fotografia no local onde Hitchcock filmou Madeleine a atirar-se para o mar e a subsequente salvação, feita por Scottie (já aqui havia falado disto). É que o mar é o símbolo perfeito do inconsciente, em constante dinâmica com o consciente (ar). E ali foi o local onde, precisamente, alguém perdeu a consciência e mergulhou no inconsciente, mas houve também alguém que, por força da razão (e) do amor, a foi resgatar e trazer de volta ao mundo palpável. Um momento absolutamente notável, de um poderosíssimo simbolismo.
“Vertigo” é “uma obra-prima, no cinema em particular, como na arte em geral”, defende Melo Ferreira, enquanto para o sapiente Bénard da Costa, o filme é “a obra-prima” do realizador. Há oito dias já aqui disse que o meu filme favorito era “A Janela Indiscreta”, o que obviamente mantenho. A grande diferença para “Vertigo” é que aquele é mais entretenimento do que este. “A Mulher que Viveu Duas Vezes” é, como referi, uma lição de arte cinematográfica. É daqueles filmes que nos fazem pensar não depois do filme acabar, mas enquanto o filme decorre, tornando-se um exercício intelectual fantástico. Mas falta-lhe, na minha opinião, aquela centelha que distingue o óptimo do genial. Em “Rear Window, para lá da mestria técnica, há essa rasgo, intraduzível, que permitiu ir um pouco mais além do que “prometia a força humana”.
Dupont

por Alcazar, Dupond, Dupont e Haddock

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