Faz hoje precisamente 200 anos que se deu uma das batalhas navais mais importantes da História: a batalha de Trafalgar, que envolveu barcos ingleses, por um lado, e espanhóis e franceses, por outro. Um nome ficaria para sempre imortalizado, o do Almirante Horatio Nelson. Durante um período da minha adolescência, andei fascinado por guerras e batalhas. Lia tudo sobre combates, desde os mais antigos ainda nas civilizações clássicas até aos contemporâneos. De entre todos, alguns destacavam-se como os meus preferidos: Aljubarrota e Waterloo, onde tive o privilégio de estar no que resta de ambos os campos de batalha, alguns embates da I e II Guerra Mundial, a Guerra dos Seis Dias e, claro, Trafalgar. Daí o destaque de hoje.

Entre as sete e as oito da manhã de 21 de Outubro de 1805, as duas frotas avistaram-se perto do cabo Trafalgar, a sul de Cádis. O lado inglês dispunha de 27 navios, sem contar fragatas e outras embarcações menores, tudo munido com um total de 2650 peças de artilharia. O adversário tinha 33 embarcações e 3150 canhões. No entanto, dizem os historiadores, a desvantagem de Nelson não era a plasmada pelos números. Na verdade, os seus canhões eram mais leves e permitiam mais cadência de tiro, além de que os seus navios tinham maior quantidade de canhões concentrada. Cerca das 11.15, Nelson lançou o seu famoso sinal "
England Expects That Every Man Will Do His Duty". Às 11.45 horas foi disparado o primeiro tiro. Pelas 16.00 já estava traçado o destino do embate e, pelas 18.00 horas, soou o último disparo. Quanto ao número de baixas, os espanhóis tiveram 2.500, incluindo-se 1000 mortos. Os franceses perderam 3.700 homens, num total de 5.200 baixas. Os vencedores perderam 450 soldados e tiveram 1.700 baixas.
A vitória começou a construir-se, como é hábito nesta gente quando se trata de coisas importantes, na concepção da estratégia e na organização. A armada franco-espanhola, como era clássico, estava disposta em linha, ou seja, com todos os barcos perfilados, oferecendo uma barreira de fogo extensa e brutal. Em vez de também formar um alinhamento idêntico, Nelson optou por ordenar a formação de duas colunas, e assim arremeter contra a linha inimiga, conforme se vê na imagem (
aqui, para ver a batalha em animação) . O objectivo era partir o alinhamento em três, enfraquecendo o adversário. Tratava-se de uma técnica arriscada por uma razão óbvia: enquanto os seus barcos não chegassem lá não poderiam disparar nenhum tiro, estando inteiramente à mercê do fogo inimigo. Caso obtivesse sucesso, era meio caminho andando para a vitória, já que os barcos inimigos não se poderiam ajudar uns aos outros. E assim foi... Apenas cinco horas depois do início da batalha, a bordo do Victory cantou-se vitória. Lord Nelson já não pôde saber o quanto a sua estratégia fora a mais acertada. Durante a refrega havia sido atingido por um tiro disparado intencionalmente contra si, desde o navio francês Redoutable, entalado entre o Victory e o Temeraire, e que se revelaria fatal.
A Batalha de Trafalgar teve um significado relativo no que diz respeito à estratégia de Napoleão, Na altura, o Imperador via os seus domínios crescerem, com vitórias em Ulm e Austerlitz, pelo que desvalorizou a derrota. No entanto, a médio prazo, a importância de Trafalgar revelou-se fundamental, já que significou o fim da ideia de Napoleão em invadir a Inglaterra, por não dispor de navios que assegurassem o transporte e a segurança dos soldados franceses num eventual desembarque. A saída que encontrou foi encetar o bloqueio a Inglaterra, com o intuito de a fazer capitular. Não teve sorte, como sabemos. Por outro lado, do ponto de vista espanhol, a derrota de Trafalgar revelou-se quase fatal. Primeiro, os nossos vizinhos ficaram, praticamente, sem armada. Depois, por força do bloqueio napoleónico, viram os ingleses tomar conta dos negócios com a América.
Mais do que o acontecimento político-militar, o que realmente fascina é a visão de um homem cuja estratégia levou a uma vitória esmagadora, com poucas perdas materiais e humanas para o seu lado. Como em muitos momentos, valores como a organização e a definição de estratégia produziram resultados positivos. Uma lição com incontáveis exemplos ao longo da História, mas que, pelos vistos, por cá, não chama a atenção de quase ninguém.
O Redoutable, já só com um mastro, preso entre o Temeraire e o Victory
(The Battle of Trafalgar, de Clarkson Stanfield, Institute of Directors, Londres)
ComemoraçõesA passagem deste aniversário proporcionou inúmeras iniciativas. Em
Espanha, Cádis é a cidade onde quase tudo acontece, com destaque para o desfile naval que acontecerá amanhã. Serão centenas de embarcações que procurarão repetir as formações dos navios de há 200 anos. Junto ao farol de Trafalgar será colocada a primeira pedra do Monumento à Paz e à Concórdia entre os Povos e inaugurada a exposição “
Los naufragios de Trafalgar”. Ainda em Cadiz, serão inauguradas as exposições “
Cadiz y Trafalgar: la ciudad ilustrada de 1805”, com recreação digital da batalha, e “Pintores y escritores del XXI vuelven a Trafalgar”. A Universidade Politéctica organiza um
curso sobre engenharia naval da época.
É claro que, em
Inglaterra, as comemorações são especiais. Exposições e conferâncias abundam. A mais espectacular será, porventura, “Nelson and Napoleon”, no
National Maritime Museum, em Greenwich. Em Portsmouth, o Royal Naval Museum exibe uma série de documentos relacionados com a batalha. O National Fishing Heritage Centre, em Grimsby, exibe uma exposição focalizada na tragédia humana da batalha.
LivrosComo é norma, a quantidade de livros relacionada com o tema cresceu abruptamente este ano.
Em
Espanha, destaque para o enciclopédico “
La Campaña de Trafalgar”, de Hugo O’Donnel y Duque de Estrada, mas também “
Trafalgar, Hombres y Naves entre dos épocas”, de José Cayuela e Ángel Pozuelo, “
Trafalgar-Três armadas en combate”, de Victor San J uan, “
El Combate de Trafalgar”, de Pelayo Alcalá-Galiano, “
Trafalgar y el Mundo Atlántico”, de Agustín Guimerá, Alberto Ramos e Gonzalo Butrón, “
El sistema atlántico español (siglos XVII-XIX)" de Carlos Matinez Shaw y José María Oliva Melgar, “
En los dias de Trafalgar”, de Augusto Lacave, “
História del Combate Naval de Trafalgar”, de José Ferrer Couto numa reedição da sua obra de 1854 e, especialmente, “
La Campaña de Trafalgar (1804-1805)” de José Ignacio Gonzalez-Aller e “
Corpus Documental” que reúnem toda a documentação da batalha.
A edição 84, de Outubro de 2005, da revista espanhola “
La Aventura de La Historia” traz um enorme dossier sobre o assunto e oferece um livro, “Trafalgar” de Benito Perez Galdós.
Em
Inglaterra, os principais lançamentos incidiram mais na figura quase mítica do seu herói nacional, Lord Nelson: “
Admiral Lord Nelson: Context and Legacy”, um apanhado de textos da responsabilidade de David Cannadine, “
The Pursuit of Victory: The Life and Achievements of Horatio Nelson” de Roger Knight, “
Nelson ans Napoleon: The Long Haul to Trafalgar” de Christopher Lee, “
Admiral Colingwood: Nelson’s Own Hero” de Max Adams e “
An Admirable Wife: The Life and Times of Frances, Lady Nelson”, de Sheila Hardy.
Na netTrafalgar, um site espanhol com imensa informação, incluindo imagens dos locais ligados à batalha, documentos e testemunhos.
Admiral Nelson and his Navy é uma página dedicada ao almirante inglês. O
War Times Journal disponibiliza as cartas de Lord Nelson. Na
BBC, completíssimo. Na
Wikipedia.
Fontes do post: El Pais, EL Mundo, The Times, La Aventura de la Historia
Dupont