sábado, dezembro 03, 2005

Os 200 anos da Batalha de Austerlitz - Entre a memória e o politicamente correcto


Austerlitz, 2 de Dezembro de 1805

O ano de 1805 ficou famoso por nele terem ocorrido duas das mais fantásticas batalhas da História Militar. A primeira já falámos dela aqui, decorreu em frente a Trafalgar e imortalizou Horatio Nelson. A segunda, ocorrida em 2 de Dezembro, foi a de Austerlitz e consagrou Napoleão como um dos maiores estrategas militares de sempre.
Há um ano que Bonaparte se havia coroado imperador. A sua sede de territórios e conquistas estava imparável. Apesar da derrota de Trafalgar, a 21 de Outubro, Napoleão havia esmagado as forças austríacas em Ulm, a 20 de Novembro e, sete dias antes, tinha entrado em Viena. No entanto, a derrota não fora definitiva e isso era algo que o Imperador desejava ardentemente.
Nesse dia 2 de Dezembro, os exércitos encontraram-se perto de Austerlitz, actual Slavkov u Brna, na República Checa. O exército francês era composto por cerca de 75.000 homens, enquanto o coligação dispunha de quase 100.000. Napoleão ocupava uma posição sobranceira sobre a zona, instalado que estava no planalto de Pretzen. A estratégia do corso passou por abandonar aquela elevação, dando a sensação, ao inimigo, de que estaria a retirar. Envolvido pelo nevoeiro, o exército russo-austríaco não se apercebeu da armadilha. Assim, na manhã desse dia, mesmo antes da batalha, as tropas inimigas de Napoleão ocupavam já o planalto e tinham o exército dividido em três frentes. À sua frente, o exército francês estava ordenado, muito embora estivesse dividido apenas em duas frentes, sendo que uma apontava ao centro do inimigo e, a outra, ao seu lado direito. Para atacar o lado esquerdo do inimigo, Napoleão não possuía tropas, já que a terceira divisão francesa ainda não tinha chegado à zona. A vantagem é que mesmo até à hora do início da batalha, o exército francês esteve mergulhado em nevoeiro. No momento em que o combate se inicia, o sol aparece – que daria lugar à expressão ‘o sol de Austerlitz’. O exército coligado vê a fraqueza do lado direito de Napoleão e resolve atacar por ali. Só que Napoleão, ao mesmo tempo que rechaça a carga, ordena o ataque frontal e a toda a força. O Genral Kutuzov, líder das tropas russas, contava com um ataque pelos flancos, até por causa da sua posição superior. Napoleão trocou-lhe as voltas e, após quebrar o exército inimigo ao meio, avançou para os flancos e, finalmente, para a vitória total, apenas quatro horas após o início do conflito. Do lado francês contabilizaram-se cerca d 10.000 baixas, enquanto o seu adversário viu esse número atingir o triplo de fatalidades. Do campo de batalha foram recolhidas cinquenta bandeiras que acabaram expostas na Igreja dos Inválidos e o bronze dos 180 canhões foi fundido e transformado na coluna colocada na Praça Vendome, tudo em Paris
Os russos fugiram e, a 26 de Dezembro, os austríacos assinavam a rendição, com o Tratado de Pressburgo. A sorte desta batalha consolidou o estatuto quase lendário de Napoleão, bem como a sua genialidade militar, ao aproveitar, ao máximo, as condições atmosféricas e as do próprio terreno.


Place Vendôme, 2 de Dezembro de 2005

Só que, duzentos anos depois, ao contrário do que aconteceu com Trafalgar, onde espanhóis e ingleses celebraram o evento, os franceses pouco fizeram, a não ser um pequeno evento na simbólica Place Vendôme. No hexágono, efectivamente, nada de relevante aconteceu. E, na reconstituição da batalha, hoje ocorrida no local do campo de batalha de Slavkov u Brna e que contou com quase 4.000 figurantes, a presença francesa limitou-se ao envio do Ministro da Defesa Michèle Alliot-Marie, tendo Jacques Chirac e Dominique de Villepin, respectivamente Presidente da República e Primeiro-Ministro, declinado o convite para estarem presente nas comemorações.




Campo de batalha de Austerlitz, 3 de Dezembro de 2005

Segundo o Daily Telegraph, isto deve-se ao facto de a figura de Napoleão estar a sofrer uma revisão, no sentido de perder a quase deificação de que tem sido alvo, e deixar emergir a imagem de alguém que lançou o caos e a morte na Europa. Ao The Times, apoiantes da figura do lendário Imperador procuram explicar o desinteresse: “the greatest French military achievement has been lost in the wilderness of political correctness”. E, claro, a imprensa francesa alinhou pelo mesmo diapasão: “Polémique autour des célébrations du bicentenaire de la bataille d'Austerlitz”, refere o Le Monde, que também dá voz ao histpriador Steven Englund, que brinca com a expressão por nós já referida e intitula o seu artigo de opinião: "Le soleil occulté d'Austerlitz". O Libération segue, evidentemente, o mesmo caminho, mostrando preocupação pelo revisionismo crescente: “Sur fond de crise du «modèle français» et de tentative de glorification du passé colonial par une partie de la droite, le contexte politique intérieur ne se prête guère à la célébration d'un personnage aussi controversé que Napoléon. Si ses admirateurs se comptent toujours par millions à travers le monde, il est aussi l'objet, depuis près de deux siècles, de permanentes polémiques.”
Confesso que tenho admiração por personagens larger-than-life, como Napoleão: um homem, uma visão, uma confiança desmedida nas suas capacidades, um país e quase um continente a seus pés. Génio? Louco? Não sei. Mas que era um estratega superior e que tinha uma capacidade notável de motivar as tropas, isso ninguém poderá desmentir. Após a vitória em Austerlitz, Napoleão dirigiu-se assim às suas tropas:
Soldats, je suis content de vous !
Vous avez à la journée d'Austerlitz justifié tout ce que j'attendais de votre intrépidité. Vous avez décoré vos aigles d'une immortelle gloire. Une armée de 100 000 hommes commandée par les Empereurs de Russie et d'Autriche a été en moins de quatre heures ou coupée ou dispersée. Ce qui a échappé à votre fer s'est noyé dans les lacs. 40 drapeaux et les étendards de la Garde Impériale de Russie, 120 pièces de canons, 20 généraux et plus de 30 000 prisonniers sont les résultats de cette journée à jamais célèbre. Cette infanterie tant vantée, en nombre si supérieur, n'a pas résisté à votre choc. Et désormais vous n'avez plus de rivaux à redouter. Ainsi en deux mois, cette troisième coalition a été dissoute et vaincue; la paix ne peut plus être éloignée. Mais comme je l'ai promis à mon peuple avant de passer le Rhin, je ne ferai qu'une paix qui vous donne des garanties et assure des récompenses à nos Alliés.
Soldats, lorsque le peuple français plaça sur ma tête la couronne impériale, je me confiais à vous pour la maintenir toujours dans ce haut état de gloire qui seul pouvait lui donner un prix à nos yeux. Mais, dans le même moment, mes ennemis ne pensaient qu'à la détruire et l'avilir. Et cette couronne de fer conquise par le sang de tant de Français, ils voulaient m'obliger à la placer sur la tête de nos plus cruels ennemis, projet téméraire et insensé que le jour même de l'anniversaire du couronnement de votre Empereur vous avez anéanti et confondu. Vous leur avez appris qu'il était plus facile de vous braver et de vous menacer que de vous vaincre.
Soldats, lorsque tout ce qui est nécessaire pour assurer le bonheur et la prospérité de votre Patrie sera accompli, je vous ramènerai en France. Là, vous serez l'objet de mes plus tendres sollicitudes. Mon peuple vous recevra avec joie et il vous suffira de dire "J'étais à la bataille d'Austerlitz" pour qu'on vous réponde "Voilà un brave !".
Dupont