terça-feira, janeiro 31, 2006

Ainda a neve…


Quando comecei a ouvir as primeiras notícias sobre o nevão que entreteve a paróquia lusa durante o passado fim de semana, julguei que se tratava de algo inédito. Afinal, mais dez, vinte, ou mais cinquenta anos em cima, a situação já se havia verificado. Isso não quer dizer que seja normal - muito pelo contrário, como o provou o gélido e monótono alinhamento dos telejornais.
Mas a verdade é que o ambiente está em mutação. Nascesse Vivaldi hoje e já não comporia “As Quatro Estações”. Efectivamente, somos confrontados, quase diariamente, com catástrofes naturais, sempre bipolarizadas entre secas e inundações, quase todas extemporâneas. Como se não bastasse, o Homem dá o seu contributo: incêndios e construções em locais de passagem de água, respectivamente.
Mas o pior não é só isso. Após a assinatura do Protocolo de Quioto, em 2004 ( mas já assente sete anos antes, o que mostra a enorme preocupação ambiental dos líderes políticos deste Mundo…), a verdade é que muito pouco mudou. As cidades continuam cheias de carros a emitir dióxido e monóxido de carbono, os edifícios ostentam cada vez mais aparelhos de ar condicionado, e os combustíveis fósseis nunca mais dão lugar às propaladas energias renováveis. Por outro lado, o maior produtor mundial de poluição, os EUA, continuam a rir-se do dito do protocolo.
Ou seja, nós, os humanos, continuamos a assobiar para o ar, enquanto o Planeta Terra vai adoecendo. Recorrendo à típica atitude de “o último que feche a luz”, todos nós nos estamos, realmente, a marimbar para com o ambiente. Porquê? Porque somos seres egoístas. E porque todos nós achamos que somos donos do planeta e que a nossa tecnologia é mais do que suficiente para dar resposta a qualquer problema ambiental quando ele surgir na sua amplitude.
Ora, como é óbvio, semelhante raciocínio enferma de um enorme vício: não somos nós quem manda na natureza, pela simples razão de que nós somos parte dela, aliás, apenas uma ínfima fracção dela. E, se um dia, ela entender que pode prosseguir o seu caminho sem nós, vai fazê-lo. E então será certamente tarde para fazer cumprir protocolos e acordos sobre o meio ambiente.
Dupont (cartoon: EL Roto, para El Pais)