Jornais 2006
Depois de um ano em que quase todos os jornais viram as suas vendas cairem, 2006 parece anunciar uma série de medidas para recuperar os leitores perdidos.
O Expresso, como porta-aviões desta batalha jornalística, será alvo das mudanças mais mediáticas. Desde logo, sai o director, António José Saraiva, substituído por Henrique Monteiro. Mas as alterações serão também formais, passando pela própria apresentação dos cadernos. Outro aspecto que levanta curiosidade é a quantidade de colunistas: trinta e cinco! Exactamente, três dezenas e meia, segundo a contabilidade feita a partir do anúncio inserido na última edição, no caderno principal. Estão lá novas estrelas, como os Migueis, Sousa Tavares e Esteves Cardoso, mas também Daniel Bessa, Mário Cláudio, Manuela Ferreira Leite e mais uns quantos. Haverá tempo e paciência para ler tanto texto de opinião? Duvido...
Da leitura dos números de 2005, disponibilizada pela Associação Portuguesa de Controlo de Tiragens, ressalta um facto que já aqui abordámos por várias vezes: os jornais gratuitos, como o ‘Destak’ e o ‘Metro’. Só para se ter uma ideia, estas duas publicações, em conjunto, tiram uma média de 234.389 exemplares diários, o que constitui, “só”, 40% da tiragem global dos diários portugueses. Estes, com excepção do inacreditável “24 horas”, caíram todos, com o DN a tombar 8,4% e o JN 14,9%. Assim, não espanta as medidas já por nós aqui abordadas como o fim da “Grande Reportagem” e a reformulação do DNa, sendo que este último irá ressurgir com uma filosofia próxima da do “Y”, do Público. Os jornais desportivos também estão em queda, o que já não acontece com os títulos económicos, que se movem na direcção inversa. Entre os semanários, bons resultados para a “Sábado” e o “Courrier Internacional”.
A isto há que somar a falta de leitura de livros, que mostra sinais de alguma recuperação, mas que é feita à custa de títulos que entretêm, mas nada acrescentam. Mas antes isso que nada, até porque a literatura também tem essa função...
Ou seja, os portugueses lêem pouco, mas parecem decididos a ler cada vez menos. A proliferação de suplementos não parece ser solução, antes pelo contrário, como já o reconheceram vários dos maiores títulos europeus. O que acontece é que cada vez mais há uma população a quem ler nada diz e, pior, que se está a afastar dos conteúdos habituais dos jornais. Só assim se explica o sucesso do “24 horas” e do “Correio da Manhã”, que fazem um jornalismo assumidamente tablóide. Veja-se que, na blogosfera, os blogs “sérios” foram ultrapassados por outros onde o soft e o hard-core são reis.
Enquanto não conseguirmos fazer crer aos mais novos a importância de se informarem, de lhes incutir o prazer da leitura como fonte de melhoria e engrandecimento cultural, continuaremos campeões europeus de iliteracia. E o fosso entre os que mandam e os que são mandados vai-se perigosamente alargando.
Dupont

por Alcazar, Dupond, Dupont e Haddock

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