terça-feira, janeiro 31, 2006

Nuestros hermanos

A última edição do Expresso trouxe uma longa entrevista com José Maria Aznar que merece alguma atenção.
O ex-Primeiro-Ministro aborda questões fulcrais da política interna e externa de Espanha, sendo que, algumas, têm reflexo em Portugal.
Aznar considera o comportamento de Zapatero questionável em política externa: “Não falar com o Presidente dos Estados Unidos não é, na minha opinião, uma boa posição política. Digamos que manter uma amizade muito próxima com Chavez ou com Moralez ou com Castro não é o melhor sítio para se estar internacionalmente”. Por mim, acho ridícula a actuação de Zapatero, voltando costas a décadas de frutuosa diplomacia, e parecendo ceder, claramente, aos objectivos terroristas de isolar os EUA internacionalmente. E faz mal porque, primeiro, isso é uma impossibilidade total, uma vez que até Espanha necessita do conforto militar e, claro, do económico proporcionado pelos EUA. Mas, mais grave, é ir aplaudir os resquícios de um império, comandados por gente que ou mergulhou os seus povos na violência e miséria, ou pretende desenvolver o seu país com ideias revolucionárias como legalizar a cocaína… Ou seja, Zapatero foge do pior do Oriente para ir mergulhar no mais esplendoroso lixo político que o Ocidente tem para oferecer.
Ao nível interno, Aznar também não partilha da estratégia de José Luís Zapatero, acenando, já, com o fantasma da guerra civil (na linha do PP de Rajoy, seu sucessor), nomeadamente quando insinua que se está na iminência da “balcanização” de Espanha. Isto porque, como é sabido, se está a avançar para o reconhecimento do carácter nacional da Catalunha e, futuramente, do País Basco. Para Aznar, isto é um óbvio processo de desintegração. O que devia ser feito era o inverso, ou seja, “fortalecimento do Estado, dos elementos de coesão e integração do país”.
Este ponto merece uma maior reflexão e a entrevista deve ser complementada com a sondagem que o El Pais divulgou no Domingo passado. Aí, as posições do PSOE e do PP estão perfeitamente definidas. De entre o universo de apoiantes de cada partido, os do primeiro acham que as reformas estatuárias são positivas (58,1%), enquanto os do segundo acham o inverso (74%). Olhando para as médias nacionais, 43% dos espanhóis entendem que as medidas vão ser negativas, contra 39,5% a achar o contrário. No entanto, quando perguntados pela conveniência em fazer mudanças aos estatutos autónomos, 48,5% acham que sim, contra 35,6%. Do mesmo modo, a maioria acha que os novo Estatuto da Catalunha não se ajusta à Constituição (41,5%), mas também entende que não põe em perigo a unidade do Estado (47,4%) e que a não inclusão da palavra “nação” foi positivo (61,7%). Os resultados são, efectivamente algo confusos. Veja-se que a maioria dos inquiridos acha que Zapatero e o PSOE não geriram bem a negociação (52,3%), mas também não concordam com a estratégia do PP em promover o referendo.
Ou seja, parece que, ao contrário de Aznar, os seus conterrâneos estão divididos e indecisos quanto à bondade da medida. O certo é que também não sabem lá muito bem qual seria a solução ideal.
Como não poderia deixar de ser, a razão não está só de um dos lados. Com efeito, não me parece que haja qualquer perigo para a unidade do Estado espanhol com este novo estatuto, pela simples razão de que bascos e catalães, na sua maioria, se sentem, igualmente, espanhóis. O segredo está no respeito pelas diferenças, culturais e sociais, de cada região, e pelo repartição equalitária entre Estado e região, da riqueza criada em cada uma delas. Algo que os diversos governos têm procurado fazer. Do meu ponto de vista, o estatuto autonómico poderá ser uma arma eficaz para segurar e reforçar, até, a estabilidade interna, já que não passa da versão século XXI da máxima “dividir para reinar”. O caso da palavra “nação” é um significativo exemplo: não está no texto final, mas aparece no preâmbulo… Outro exemplo é o da autonomia financeira, que se ficou num aumento do bolo dos impostos para a Catalunha que supera os 50%, e não a quase totalidade, como defendiam os catalães.



O grande problema é outro. É que com tanta cedência à Catalunha, igual tratamento vai ser reclamado pelo País Basco e, eventualmente, pela Galiza. Ora, sendo os dois primeiros os responsáveis pelo andamento da economia espanhola, não se percebe lá muito bem com que orçamento é que o Governo vai gerir o país. Até porque o que sobra é, essencialmente, agricultura e turismo… E se mais dinheiro ficar no nordeste do País, como é que se vai canalizar dinheiro para a Andaluzia e a Estremadura?
Desmembramento de Espanha parece que não, mas sérias dificuldades governativas e, principalmente, orçamentais, já me parece que sim.
Dupont(cartoons: EL Roto, para El Pais)